a inspiração é pra mim, ainda, uma coisa um tanto inexplicável. não sei dizer de onde ela surge, mas é fato que as melhores acontecem quase sempre quando não tenho papel ou tempo de escrever.

no ônibus, andando na rua, olhando os espelhos d’água depois da chuva… raras são as vezes em que sinto que posso escrever algo realmente bom, do calibre das coisas que gosto de ler do Neruda ou da Florbela e tenho como escrever. escrever é minha forma de terapia, jogo no papel todos os meus fantasmas, medos e desejos na esperança que o papel saiba melhor como resolvê-los do que eu. é muito parecido com o que o Paulo Guedes fala no Tratado Geral da Reunião Dançante: a gente escreve para resolver os nosso problemas.

livro interessante, aliás. nada muito complexo, longe daqueles grande clássicos da literatura que as pessoas fazem caretas sérias de aquiescência mesmo sem ter lido uma linha sequer só porque todo mundo diz que é clássico. não. não é um desses. mas quando li lembro que senti muitas coisas. a mais desconcertante foi raiva.

que diabo de livro que diz exatamente o que eu faço e não queria reconhecer: escrever para resolver a vida. mas parece que funciona de algum modo. não faz muito tempo que me sinto habilitada pra encher a boca e dizer: SOU POETA. mas a primeira vez que disse em voz alta, provocou uma sensação ótima: senti que era esperta. hábil em alguma coisa. com efeito, é uma das coisas que gosto de fazer e que faço com algum sucesso. algumas vezes. nem sempre.

há dias, por exemplo, vem tamborilando na minha cabeça um punhadinho de versos que não decolam de jeito nenhum. são pra um vizinho que me tenta quase todos os dias. não é meu par perfeito, não é lindo, não tem os olhos verdes que sempre me causam tanto impacto, mas me tenta.

tem um riso largo e bom de ouvir e lábios cheios que tenho cada vez mais vontade de morder. é estranho porque essa tentação é totalmente visual. quando o vejo, não consigo não pensar em como seria ter suas mãos nas minhas costas e morder aquele riso tão bom.

mas o poema mesmo não sai. assim como o romance. ele não me leva a sério e desconfio que possa estar pensando que quero levá-lo a sério, o que não é exatamente o caso. enquanto isso, fico com os poemas velhos

Canção de poeta sem poesia

Às vezes a poesia me abandona
nas horas corridas dessa modernidade tola

é como se o amor também me abandonasse
em vielas desconhecidas
de uma cidade que não me pertence

Somente a música do vento nas folhas
da árvore nova na minha janela
desperta minha poesia desse sono de cimento
ruídos e ondas eletromagnéticas

Então desejo de volta o entorpecimento do vinho
e das noites em que não se conta o tempo
de pele quente nas minhas costas

Desejo a paixão, a febre, o frio na espinha
desejo de volta aquele olhar de quem me vê inteira
sem sombras nem descaminhos

Mas a chuva leva embora
minha poesia de novo

novembro/2003

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