me pego algumas vezes lembrando daquele grande amor que tive. havia tantas coisas tão especiais que acho cruel demais que tenha acabado sem nunca mais nos falarmos. é nesses momentos em que a solidão aperta mais.

passei uma agradável tarde de sábado com um amigo muito querido a quem eu quero muito bem. por sinal, foi ele a gota d’água pra colocar fim a um amor já desgastado demais dois anos atrás. quando o conheci, compreendi que era realmente hora de ir embora. falamos a mesma língua e compreensão é algo raro demais para ser desperdiçado. pois esse amigo disse algo que ficou no pensamento e não quer sair de jeito nenhum. dizia ele que é contraditório sentir isso, quando nos gostamos tanto de tantos jeitos, mas o fato é que é uma pena que não estejamos dando certo com alguém. nós dois mesmos tentamos e não deu.

é realmente uma pena. mas ao mesmo tempo entendo que não esteja acontecendo nada especial agora porque já fui agraciada pelos dias que passam com algo muito especial. e não se pode ter tudo assim sempre.

aquele guri, aquele que foi o grande amor, tinha um par de olhos verdes que me desnudavam a alma em dois segundos. verdes intensos e escondidos sob grossas sombrancelhas cerradas e um par de lentes de muito míope. parece que eram só meus, porque só eu os via como eram quando nos amávamos e depois tomávamos banho juntos. quase sempre. como um ritual. algumas horas de entrega frenética e depois um bom banho quente juntos. era especialmente bom no inverno. era especialmente bom no início.

penso que não será possível algum dia esquecer tudo isso. aquele par de olhos verdes onde eu sempre me perdia e um riso maroto de criança arteira quando estava feliz. acho que nem quero ter outro romance como aquele porque seria impossível não comparar.

dois anos que não estamos juntos e acho que ainda sei como ele pensa e age. e acredito que ele saiba o mesmo sobre mim.

nunca gostou de poesia e não fazia questão de ler a minhas. dizia que não as entendia. mas aprendi que não era assim que ele sabia ser romântico. e que me dizia o quanto me amava a cada dia que tomava posse de mim como uma coisa que sempre foi sua por direito. e tomou posse de todos os meus pensamentos e desejos por muito tempo. e sabia me dobrar como ninguém conseguiu antes e como ninguém repetiu depois. mas guardou todas elas, e também todos os versos do Neruda que dei a ele ao longo de quatro anos. e me devolveu aqueles mais dolorosos quando terminamos. em especial um que diz “não te vás por um minuto, bem amada, porque nesse minuto terás ido tão longe que eu cruzarei toda a terra perguntando se voltarás ou se me deixarás morrendo.”.

ainda lembro de todo o ritual dele se vestindo para ir trabalhar, nas vezes em que ele trabalhava e eu ficava ainda mais um pouco na cama. basta fechar os olhos e lembrar de todos os sons e cheiros e sensações daquelas manhãs de segunda-feira quando o rádio-relógio gritava desesperado 6 horas. era sempre igual o ritual de levantar-se, ir ao banheiro, acender um cigarro, ligar o chuveiro, depois o desodorante, o perfume, voltar, vestir a cueca, as meias, a camisa, colocar a barra da camisa dentro da cueca, vestir a calça, puxar a camisa (era só assim que ficava perfeitamente reta!), calçar o sapato, pegar a gravata, de volta ao banheiro, alguns minutos ajeitando o cabelo, mais alguns o nó da gravata, voltar ao quarto, pegar cigarro, carteira, celular, chave, passagens – cada um com seu bolso, último beijo, bater nos bolsos para conferir se está tudo lá, pegar pasta, bater a porta. e ainda sei que ele acende mais um cigarro quando chega na rua.

a mim, sobrava o calor dele indo embora, puxar mais as cobertas, dormir mais uma ou duas horas aconchegada no nosso cheiro de cama quente. adorava vê-lo se vestindo. difícil de esquecer o peso gostoso do corpo dele e aquele abraço em que só cabia nós dois e nada mais do mundo. tão nosso e tão especial que nada poderia invadir esse minúsculo espaço. jamais vou esquecer a última noite antes de eu ir embora de nossas vidas. claro que ele sentia que a partida estava próxima, então tirou lá do baú da memória o abraço mais apertado que tínhamos no início do namoro e perguntou porque eu estava fazendo aquilo.

difícil de explicar. algumas vezes me esqueço o que foi. mas no fundo eu sei bem que nosso amor não combinava mais com nossas vidas e nossos desejos. que deixamos que se perdesse todo o encanto de saber que somente nós nos conhecíamos tão bem. que partilhamos quase todas as nossas dores e nossos segredos e que nos encontramos no exato momento em que precisávamos de um amor assim, incondicional.

fico com o Neruda. é o que resta. a lembrança, o carinho e a poesia. e talvez algum amor que jamais se apagará, mesmo que venham outros maiores.

Não estejas londe de mim um só dia, porque como,
porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.

Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando casa
venha matar ainda meu coração perdido.

Ai que não se quebrante tua silhueta na areia,
ai que não voem tuas pálpebras na ausência:
não te vás por um minuto, bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo.

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