vi ontem num jornal uma frase interessante, de Charles Baudelaire: “Quanto mais se deseja, melhor se deseja”. pois acho que ele está com razão. tenho desejado muito algumas coisas nos últimos tempos e conforme as horas passam, esses desejos se tornam mais elaborados.

por exemplo: desejo trocar meu horário de trabalho, que é na madrugada. todas as madrugadas. exceto sábado, porque também sou filha de Deus. agora parece que pode acontecer. digamos que há 25% de chances de acontecer de um modo nos próximos dois meses e 90% de chances de acontecer de outro modo, um pouco mais complicado e um tanto menos seguro, nos próximos 4 ou 5 meses. duas possibilidades completamente diferentes, com responsabilidades e implicações diferentes. mas como desejo que isso aconteça.

desejo voltar a ter uma vida social razoável. ir mais ao cinema. ver uma variedade maior de pessoas. alimentar-me de uma maneira mais adequada. tudo isso está ligado ao desejo de mudar de horário de trabalho.

incrível como uma simples mudança pode transformar todo o rumo das coisas. é a perfeita teoria do caos: quando mais elaborado o sistema, mais complexos seus problemas e redes implicações e efeitos. uma mudança de trabalho pode mudar bastante o rumo das coisas em um dia.

foi assim no vestibular. quase passei em 1998. não passei porque não fui capaz de chutar corretamente uma questão a mais de matemática. uma questão. se tivesse acertado essa única questão a mais tudo poderia ser diferente, não sei dizer como seria, mas sei dizer como não seria.

talvez não tivesse conhecido meu maior amor. nem minha melhor amiga, colega de faculdade. talvez não tivesse tido as experiências acadêmicas que tive, e talvez sequer estivesse trabalhando nesse horário maluco. tudo isso estaria completamente diferente por uma questão a mais. parece mesmo matemática. mudando um algarismo, mudei todo o resultado.

mas ok, não tem resultado. não tem conta final. digamos que mudei então o processo, o andamento das coisas, para deixar a situação um pouco mais próxima do paradigma complexo. isso me lembra impermanência.

tenho conversado muito com uma amiga budista, que me fala da impermanência de todas as coisas. concordo, mas algumas poderiam não ser tão impermanentes assim. isso também me lembra Neruda. Esperemos, é o título:

Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
– há fábricas de dias que virão –
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

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