recebi de uma colega uma mensagem legal de “dia das mulheres”. não gosto desse negócio de dia das mulheres porque quase todas as mensagens que recebo nesse 8 de março me colocam na ridícula posição de “você é especial simplesmente porque é mulher”.
eu sou especial porque sou gente. porque amo, brigo, escrevo poesia, leio poesia, cozinho pros amigos com prazer, me preocupo com as pessoas a minha votla. não tem nada de essencialmente feminino nisso.

bom. a mensagem que recebi e gostei fala de um assunto que me incomoda muito especialmente e resolvi publicar aqui. não achei onde foi publicado, mas acho que é sério mesmo. a amiga que mandou não mandaria bobagem.

nenhuma mulher deveria passar por essas violências. nenhuma mulher deveria ter que passar pela dor de lhe ser negado o direito de decidir ou a discriminação/incriminação por fazê-lo porque já é suficientemente doloroso ter que decidir, seja em que circunstância for.
grifei as partes que mais me martelam na cabeça depois de lidas.

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Abortos – Diana Corso

Engravidar pode ser conseqüência de uma concepção planejada e buscada pelo casal, ou o resultado de um acidente, causado por falta de informação, pela falha de um método anticoncepcional ou por uma cilada do corpo. Pode ser a confirmação de uma fertilidade potencial, motivo de alegria para muitas, ou a notícia de que os próximos anos serão monopolizados pela servidão ao filho, cujas necessidades sempre falarão mais alto do que as da mãe. Para uma adolescente, pode ser a afirmação da condição de mulher, identificada com sua mãe e avó, pois agora ela sabe que pode ser como elas, ou o anúncio de um futuro restrito, já que terá que trabalhar ao invés de estudar e trocar sua vida social por noites de fraldas e mamadeiras. Pode ser a forma de livrar-se de uma mãe que não deixa a filha crescer, oferecendo-lhe um neto e deixando a criança no seu lugar. Pode ser um meio de união com o homem amado, o sinal de que o casal quer construir algo juntos, ou o início de uma seqüência de abandonos masculinos, nos quais a mulher sempre se encontra enfim só, criando o filho e ruminando seus sonhos frustrados de família feliz.

Engravidar é um acontecimento feminino de múltiplos significados e boa parte deles não contém uma intenção genuína de ser mãe. O fato de que um deslize psicológico ou biológico (do casal) tenha redundado numa gravidez indesejada não deve impor uma maternidade compulsória. Se legalmente o aborto é considerado um crime contra a vida, talvez seja mais criminoso impedir que uma mulher faça essa escolha em seu destino. Mais do que isso, é hipócrita, porque as mulheres abortam: levantamentos arrolam mais de um milhão de abortos clandestinos por ano no Brasil. Essa hipocrisia é criminosa, pois faz do aborto improvisado e insalubre uma importante causa de morte entre as mulheres.

Abortar pode ser um alívio, um pesadelo que se conclui, o fim da ameaça de um futuro que não se quer ou não se pode viver. Pode ser a marca de um episódio traumático, que será sempre lembrado, fonte de cálculos eternos de que idade teria o filho que não nasceu. Pode ser fonte de fantasias de ter tido o corpo danificado. Abortar é sempre triste. A clandestinidade, a culpa e a falta de apoio psicológico adequado não impedem essa prática, só geram mais sofrimento para as mulheres. Deve ser uma forma de castigo social pelo crime de se negarem ao secular serviço da reprodução humana. A revista TPM de fevereiro trouxe a corajosa (ex)posição de duas mulheres que revelaram ter realizado aborto e o duro relato dessa experiência. A edição de março vem com um dossiê sobre o assunto. Palmas para essa atitude, prenha de uma desejada mudança para a vida das mulheres.

A psicanalista Diana Corso escreve quinzenalmente no Segundo Caderno/ZH

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