em poucos dias nunca tive tanta novidade. até vou dividir em capítulos, pra ficar mais fácil….

a viagem

cheguei em Alta Floresta na última quinta depois de exatas 24 horas de viagem. 8h40 saí de uma belíssima manhã outonal de Porto Alegre, com friozinho suave e ventinho que não bagunça o cabelo. sujeita ao fabuloso serviço serviço de bordo da Gol, uma hora e pouco esperando a conexão em Congonhas, que atrasou, lá pelas 14h aterisso na cozinha do inferno. Cuiabá me recepcionou com um dia quente e suarento, sol rachando, trânsito ruim, cinquinho só pro carregador levar duas miseráveis caixas e uma mala até o guarda-volumes da rodoviária, menos de 30 passos. pelo menos quatro horas até o ônibus para o nortão mato-grossense, como chamam a região aqui. eu, cheia de planos de dar uma volta na cidade, fui convencida em 10 minutos pelo calor a ir pro shopping tentar pegar um cinema.

shopping Pantanal, nome de um monte de coisas em Cuiabá, pelo pouco que vi das placas e outdoors nas ruas. consegui pegar Constantine já na cena inicial do filme, a sessão tinha começado há uns 10 minutos quando achei a bilheteria. pulei trailleres e propagandas. beleza. sala confortabilíssima numa privilegiada sessão com no máximo outras cinco pessoas. e ar condicionado. até aqui a viagem foi tranqüila. sem poréns. nem dava pra dizer que era uma viagem mesmo, com letras maiúsculas.

19h, rodoviária, calor ainda brabo, com a graça de deus o ônibus é daqueles modernos, executivos, com ar-condicionado – numa achei que ia gostar tanto dele! no busão, um CD ruim com faixas arranhadas. depois vídeo. Kate & Leopold. já tinha visto, aproveitei pra fechar os olhos e tentar cochilar. quem disse que consigo? devo ter algum problema grave com dormir em ônibus confortável… mas juro que aqueles bancos semi-leito com aquela coisinha nas contas do banco da frente que se puxa para acomodar as pernas é horrível, me sinto escorregando, dá dor nas costas, uma desgraça. não dormi. ok, dormi sim: duas, das 13 horas de viagem! estrada ruim, escuridão, não deu nem o prazer de curtir a paisagem durante a viagem.

Alta Floresta

a cidade parece uma do interior do Rio Grande do Sul, porém mais quente. em vez da esperada paisagem de floresta (que eu todavia não esperava depois da amazônia peruana…) há aqui uma paisagem rural, com muito pasto e gado – o primeiro grande problema da região. acho que é nelore. tem todo jeito de zebu, deve ser nelore, mas entendo muito pouco de boi… o caso é que não é o fim do mundo como podia parecer olhando no mapa. ah, a escala de primeiro e segundo diz respeito tão somente à ordem com que estou vendo, no sentido de pousar os olhos mesmo, porque são todos tão complicados que não ouso dizer qual é o maior.

de modo geral, a cidade é bastante plana. é quente, sim, mas nada que Porto Alegre não faça igual em dezembro. mas estamos no outono, então espero estar bem aclimatada quando chegar o verão. a vantagem, em relação ao calor, é que aqui o verão é a estação chuvosa, o que sempre ajuda um pouquinho a não parecer tão insuportável. espero.

moro a uma quadra do escritório, tudo é perto. estou bem no centro, bem localizada. mas é exatamente aqui que começam os poréns. as janelas de quase todas as casas são pequenas demais pra quantidade de luz e calor que faz. a ponto de que durante a noite é mais fresco na rua do que dentro de casa. uma falta de inteligência que a mim parece assustadora. além de ser mais quente, gasta mais luz elétrica desnecessariamente num lugar onde a luz do sol abunda o ano inteiro.

na primeira noite fui recepcionada pelo segundo problema: o fogo. não chove há duas semanas, pois é o início da estação seca, que deve durar uns três meses. então as pessoas começam a colocar fogo em tudo, no lixo, no capim perto das casas, em coisas que é mais fácil queimar do que cuidar. a fumaça e a fuligem na primeira noite dentro do meu quarto davam a impressão de que o incêndio era no pátio ao lado. não era. me contaram que há uns três anos, numa das cidades aqui perto (ah, e meu conceito de perto/longe já está mudando radicalmente…!), as escolas tinham que suspender as aulas em alguns dias porque os alunos desmaiavam com a fumaça que cobria tudo.

mas a cidade também tem seus pequenos encantos. na esquina da minha casa tem um orelhão que ainda não descobri se é em formato de garça ou tuiuiú gigante. fofo. nada daquelas coisinhas verdes e sem graça de Porto Alegre. quando a gente aperta os números, o orelhão balança, por causa das pernas finas da ave. é muito engraçado. da primeira vez, quase me senti uma espécie de vândalo, tentando derrubar o orelhão com os dedos.

o mais encantador de tudo, no entanto, são as araras. quase sempre em duplas, elas voam livremente pelo centro da cidade, de árvore em árvore, barulhentas, coloridas, inacreditáveis. o som dos pássaros na minha janela, definitivamente, mudou. de resto estou me sentido realmente bem. o trabalho é muito, mas o tempo aqui passa de um jeito diferente. começa com o fuso horário, uma hora antes que o Sul. anoitece lá pelas 17h30 e acho que já é hora da janta. muito esquisito, parece que o tempo passa mais devagar. ontem vi um pôr-do-sol que me lembrou esses do inverno de Porto Alegre. horizonte cheio de nuvens e o sol descendo, pintando tudo de vermelho. mesmo assim o nosso continua sendo mais bonito. aqui o entardecer tem menos tons de vermelho e muito mais azul. o sol desce rápido, mas ao contrário do Sul, a luz permanece mais tempo no céu nublado, que ficou mesclado de nuvens escuras e céu azul claro por um longo tempo. muito lindo. se for assim todo o inverno é bem capaz de eu sentar na rua todas as tardes com meu chimarrão solitário lembrando o matiz cabloco do meu Estado. de resto, estamos todos sob o mesmo céu.

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