como vencer essa terrível tentação de encantar-se? como não desejar um abraço, um afago no rosto, um sorriso só meu? algumas vezes creio que essa solidão sem nome e sem fim, que pulsa incontrolável rumo à paixão beira a gravidade, a insanidade. simplesmente não consigo parar de lembrar, tentar sentir novamente, redesenhar, reinventar os amores que tive. faz apenas uma semana que estou aqui e já me sinto só novamente. carente de atenção e encantamento.

no momento em que escrevo é noite de sábado. assisti Uma Mente Brilhante no meu computador com minha nova colega de apartamento e um amigo seu. não tenho internet em casa ainda, nem telefone, vou poder postar somente na segunda, quando talvez me falte a coragem da confissão. mas a verdade é que quero um amor como o de Alicia por Nash. um amor de fidelidade e aposta, para o qual é necessário coragem. ou resilência. ou apenas amor mesmo. então penso o que não tive: coragem, resilência ou amor? estou aqui no norte do país, tão longe do maior amor que tive, que todavia vai para quase três anos que simplesmente nunca mais vi. queria ter visto ainda, antes de sair de Porto Alegre, mas faltou coragem para ser persistente. tentei, mas na hora errada e do jeito errado. e agora acredito que realmente não nos tornaremos a ver. vou passar quanto tempo pensando se ele me perdoou por tê-lo deixado? seu olhar tão verde, profundo, escondido, tão meu, me acompanhará por quanto tempo?

dos outros amores que tive, apenas um sigo amando cada dia mais, mas agora de um amor diferente, sereno, cúmplice, amigo, amor de almas que saíram da mesma cepa. olho pra nossa foto agora, Marcos, e sinto que você está aqui comigo. me abraçando e afastando todos os fantasmas, toda a tristeza e essa solidão que é tão parte de mim. talvez ninguém jamais consiga entender isso que sentimos. mas também não consigo deixar de pensar que é o único dos meus tantos amores que deixou algo de imensamente bom e perene. dos outros sobraram apenas o carinho que temos pelas pessoas que passam bem pelas nossas vidas, e a lembrança de noites para reinventar no vazio da minha cama.

o que realmente meu coração veio aprender aqui? talvez minha lição seja controlar meus olhos e domar a solidão, mas é tão difícil não sonhar. Alta Floresta não é Porto Alegre, onde ninguém sabia quem passava pela minha cama se eu assim quisesse. não posso aqui remediar minha solidão com flertes sem compromisso, regados a vinho e boa música, se meus colegas de trabalho sabem que comprei um ventilador antes mesmo de eu lhes contar.

saí de Porto Alegre com um romance tão gostoso de ter vivido, que me sinto grata a mim e aos céus por nos termos permitido viver aqueles momentos, especialmente os últimos, com um sabor tão doce de despedida. por que não me contento com essa lembrança para acalmar meu coração? por que desejo que estivesse mais perto, mais ao alcance do meu assédio? por que o que na hora me pareceu o possível agora me parece tão pouco, em tão pouco tempo, para o tanto que parecíamos ter para trocar? a confusão do animal tropical de Pedro Juan ameaça jogar-me dentro da tempestade e não consigo domar minha imaginação. aqui não tenho nem quem ouça estes meus desvarios com a tranqülidade de quem acredita que não sou louca.

escrevo desconfortavelmente sentada no chão com o teclado sobre as pernas, porque meu quarto ainda não tem uma mesa, e reluto com o pensamento que me assombra desde que fui comprar uma cama – tenho uma emprestada com um colchão que a qualquer momento ameaça me matar. uma cama de mola, como eu já queria em Porto Alegre, daquelas tipo box, vai levar 20 dias pra chegar aqui. a explicação deles é de que o móvel tem pouca saída na cidade e a fábrica fica perto de Cuiabá. a minha é de que vim parar num fim de mundo. e esse não é um bom pensamento para quem chegou há 10 dias. aqui não encontro dill para fazer o molho do macarrão e refuto terminantemente a possibilidade de tomar vinho com gelo. o sacrilégio, pelo que me disseram, é um costume local usado para driblar o calor.

comprei uma cortina para poder andar nua pelo meu quarto, cuja janela não é mais que um par de vidros me separando da rua, e o menino que veio instalar parece não ter a menor noção da utilidade do artefato. instalou o suporte do varão cinco centímetros para dentro da abertura da janela de cada lado, o que deixa 10 centrímetros de vidro descoberto. não fosse a criatividade com que Deus premiou todos os brasileiros, minha nudez doméstica seguiria vetada.

como ter um romance fugaz e anônimo neste quadro? ainda bem que o velho Paulo Guedes confirmou o que eu já pensava: só escrevendo para resolver a própria vida. se tivesse que guardar todas essas coisas em palavras que se perdem no espaço em ondas sonoras que sabe deus em que dimensão vão parar, a tempestade já teria arrasado minha pobre ilha caribenha, tão desprotegida, tão à deriva em minha alma. me ocorre que talvez eu esteja fazendo o que Frances fez, quando trocou San Francisco pelo sol de Toscana. ainda não fiz um pedido, sob a tensa possibilidade de ter uma cobra sob a cama… vou ver se essa noite tem alguma estrela cadente.

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