depois de muito pensar descobri o que me resta, em mantendo minhas resoluções radicais de segunda-feira: café. nem tudo está perdido! café não engorda, não é um vício feio, não depende de ningúem, não dá mau-hálito e não faz mal pra saúde. ok, faz mal pra saúde em grandes quantidades, mas minhas canequinhas diárias são inocentes, eu juro!

como estou inspirada, aguardando um telefonema de uma fonte que está fugindo de mim como o ratinho que mora na minha cozinha, vou começar a colocar intertítulos, porque estou verborrágica hoje…

casa nova
resolvido isto, TPM controlada, vamos ao que interessa mesmo, que são as impressões sobre minha nova morada. este final de semana comprei um guarda-roupas e um armário pra cozinha. tirei fotos, mas como sou pobre e tenho uma velha Zenite 50mm toda de ferro, o filme ainda não acabou e não revelei-escaneei-publiquei pra poder mostrar pros de longe minhas novas aquisições. de todo modo a casa tá ficando parecida com casa mesmo. tenho uma cortina daquelas que vedam a luz e uma outra, de algodão cru por cima que estão bonitas e deixam meu quarto escuro e privado. agora posso andar à vontade, como me gusta.

também comprei um armário pra cozinha. é doce essa sensação de montar a casa. escolher, pensar, organizar. depois de uma semana de pinturas que deixou a minha absolutamente do avesso e me expulsou de lá por causa do pó e do cheiro, as coisas estão se ajeitando. a pintura, aliás, é um capítulo à parte.
minha colega de apartamento já vinha pedindo isso antes de eu chegar e nada. foi eu me acomodar precariamente que o dono do prédio – um senhor simpático que ganha dinheiro negociando o que sobrou de ouro depois do garimpo e construiu o Residencial Barracão pra sustentar sua idosa mãezinha – resolveu providenciar a pintura. tudo de volta pra dentro das caixas, muvuca, poeirama, sujeira. Bosh ficaria feliz em pintar esse quadro. mas beleza, o apê ia ficar bonitinho. terminada a pintura da sala, no entanto, percebo que o teto não havia sido incluído no serviço.

– você vai pintar o teto?
– não.
– …
– o Seu Fulano não me disse pra pintar o teto.
– hum.

primeira descoberta: teto não faz parte da casa. beleza. ninguém fica olhando pra cima mesmo. serviço quase concluído, me dou conta de que o rapaz não havia entrado no banheiro. arrisquei.

– você vai pintar o banheiro?
– não.
– não?
– O Seu Fulano não me disse pra pintar o banheiro.
– mas já que tá pintando a casa toda, podia, né?
– …

banheiro, portanto, também não faz parte da casa. any way, ele acabou pintando.

balanço
andei fazendo um balanço do primeiro mês em Alta Floresta, que todavia não fechou ainda. contando com amanhã, em um mês já terei feito quatro viagens para três cidades da região, duas longe, duas pertinho. uma boa média pra quem pediu aos astros, no dia da formatura, na cobertura do prédio chiquérrimo que aluguei pra minha festinha, para viver na estrada. é a prova de que quem pede ganha.

acho que todo aquele momento deep registrado aí abaixo foi um pouco do impacto subcutâneo da viagem. agora começa a cair mesmo a ficha de que não é uma viagem, mas uma mudança. e longa.

quanto mais conheço as coisas daqui mais me convenço de que estou corretíssima comigo em ter vindo pra cá. lá em Porto Alegre, praticando jornalismo de gabinete – inclusive nas atividades voluntárias – eu acabaria por perder a sensibilidade. aqui as coisas são todas mais difíceis, mais duras, mais secas. vou explicar.

semana passada estive em Lucas do Rio Verde, nove horas de busão por essas coisas que aqui chamam de estrada. cidadezinha bem simpática, bem planejada, sustentada pela soja. as escolas municipais beiram o luxo, com pavilhões novos, bem construídos, todas com piscina, lindas. a cidade também tem uns 15 anos de fundação. e fundação aqui significa um colonizador (empresa, construtora, família, consórcio, coopergato, etc.) que junta uma grana, compra a toda a terra, planeja, constrói e vende – e ganha muita grana depois isso. ou um grileiro chega, desmata, diz é meu e leva bala quem disse que não e lá fica, e com o tempo acaba virando um aglomerado de gente. ou ainda o Incra resolve que tem que mandar 700 famílias de pequenos agricultores pra qualquer buraco, gira o mapa, escolhe um e diz tó, fica lá vocês tudo e não enche o saco mais. está mudando nos últimos anos, pelo que saquei, nos últimos menos de 10, mas tem sido assim desde os anos 60…

bem. em Lucas, fui participar de uma oficina de comunicação comunitária. eram cerca de 20 pessoas de diferentes cidades do estado. um mosaico de cores, sons e histórias duras. vou contar uma delas, rapidamente porque a estas alturas já fui e voltei pra esse bloco de notas inúmeras vezes e a fonte apareceu há cerca de meia hora. portanto estou cansada e quero ir pra casa comer uma salada de coco que estou planejando desde que o povo daqui abriu uns pra tomar aquela golesma líquida horrorosa que tem dentro.

índios
Samuel é terena, seu povo é originário do Mato Grosso do Sul, mas passou 22 anos na beira das estradas, sendo enxotado em direção ao norte, até que o governo resolveu demarcar uma terra há uns 3 anos. incrível como todo o país acha que MS e MT são a mesma coisa. olhem no mapa, por favor, é quase todo o naco continental do mapa do Brasil. não é a mesma coisa!

os terena de Samuel foram colocados junto a um assentamento de pequenos agricultores no município de Peixoto de Azevedo, uma localidade pobre, órfã do garimpo. primeiro problema, isso não é terra indígena. mas ok, eles estavam cansados da estrada, queriam um pedaço de chão pra viver com mais dignidade. os problemas, no entanto, estavam só começando. o governo assentou grupos diferentes de terenas. a nação é uma só, mas dentro dela existem diferentes grupos. só porque é terena não significa que seja tudo a mesma coisa. muitos dos índios assentados nasceram na estrada, no êxodo lamentável a que foram submetidos desde o sul. assim, o idioma está se perdendo, a cultura, a religiosidade. e as outras criaturas quando os encontram ainda querem que andem pelados sem falar português, dormir em cama, usar relógio ou celular! haja crueldade.

Samuel, no entanto não se abala mais. me conta essa história com um sorriso simples de quem acredita que agora vai. diz que a tribo tem uma rádio comunitária e isso está ajudando a agregar as pessoas e retomar o idioma. conta que é difícil se adaptar, principalmente para os velhos. porque o clima é diferente do seu local de origem, mais quente, com outros insetos. que eles têm que aprender do zero a conhecer a paisagem, as plantas, as sementes. a violência é tamanha contra uma cultura inteira que dá vontade de esbofetear o cretino da Funai que disse que aquele era o melhor lugar pra eles. sim, porque alguém com nome e CPF fez isso. comento isso e Samuel me olha sorrindo seu sorriso simples e diz que eles estão conseguindo. estão com projetos de ensino do idioma terena, a relação com os assentados é de cooperação, e assim vai. algo como, mas eu sou brasileiro e não desisto nuca. promete me chamar para uma oficina de educação ambiental na tribo mês que vem e eu nem sei como agradecer pela aula de esperança e simplicidade. lembrei na hora da palavra que a Nancy Mangabeira Unger usa pra designar o jeito que as pessoas vivem: RESILÊNCIA.

(ps.: este post é de ontem, mas o blogger tava fora do ar de noite, então, só agora pude postar. by the way, estou há 36 horas sem fumar, mas não resisti e comi uma balinha de banana ontem.)

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