este final de semana completou um mês que estou aqui em Alta Floresta. e justo neste final de semana aconteceram coisas bastante significativas para mim. uma daquelas bagunças existenciais que só o Marcos entende plenamente e que não deu pra contar por telefone – como sinto falta dos nossos mates ou chás da meia-noite!

fui a Colider na sexta, para conhecer um programa de formação de lideranças, o público alvo era de jovens da roça, como eles mesmos fazem questão de se denominar, com muito acerto e propriedade. não dá pra explicar a revolução que esse contato provocou na minha cabeça já tão propícia ao caos. acontece que hoje eu sou fruto do que esses jovens estão fazendo agora, porque minha militância social começou com a Pastoral da Juventude. faz mais de 10 anos que entrei para um grupo de jovens da paróquia perto da minha casa e passei quatro anos absolutamente envolvida, seduzida, absorvida pelas coisas da militância. depois que saí da PJ, por contingências da vida (cursinho, trabalho, vestibular, namoro…) ficou me faltando um pedaço. uma intensa sensação de que falta sentido para todas as coisas.

e na faculdade descobri a educação popular e o ambientalismo, numa forma de juntar as duas coisas que tinha tudo a ver com as coisas que eu lia e fazia sobre a opção da igreja da América Latina pelos pobres, a teologia da libertação e o aprendizado a serviço do bem comum. resumindo, é assim cheguei no nortão do Mato Grosso. com vontade estar a serviço de quem precisa das coisas que eu estudei, das coisas que penso e que posso fazer. ou pelo menos a serviço de quem quer o que eu tenho para dar. mas como o confronto com a dureza das coisas aqui é assustador!

passei dois dias com aqueles jovens da roça lembrando que eu também já fiz cursos de formação de lideranças, com 15 ou 16 anos. vendo as cerca de 30 jovens mentes, várias mais velhas que eu inclusive, me dei conta do quanto os rumos da minha vida foram determinados pelas coisas que vivi 10 anos atrás. será que hoje eu estaria aqui – ouvindo a história de pessoas ameaçadas de morte por grileiros que tomaram terras públicas onde o Incra deveria ter feito um assentamento para a reforma agrária – se não tivesse contato com a PJ 10 anos antes? foi inevitável pensar em todas essas coisas no caminho de volta, sacolejando pela estrada no ônibus.

olhando a floresta substituída por gado e pasto, árvores queimadas na desolação de uma paisagem surrealmente sulista, a terra rasgada pelas marcas da mineração de anos passados, a poeira da estação seca, me dei conta do quanto estou longe da minha casa. será que estou mais perto das minhas raízes? finalmente estou do lado das coisas que acredito, mas será que posso mesmo fazer diferença nessa terra de desilusões?

vim no caminho de volta pedindo a Deus que me proteja, que não me deixe desanimar ou desistir, que não me abandone. pedi intensamente que ele não me deixe atrapalhar a vida dessas pessoas tão violentadas em sua dignidade, jogadas em uma terra que lhes é estranha e hostil, sem condição alguma de viver da floresta de pé, simplesmente porque elas não são daqui, não conhecem a floresta e precisam colocar comida na mesa. há 30 anos, quando o governo começou com os projetos de colonização do nortão foi exatamente isso que fez: jogar aqui as pessoas do Sul aqui e lhes dizer: ó, táqui a terra que vocês pediram, agora se virem e não incomodem mais!

então só pude pedir a Deus para não alimentar esperanças falsas a essa gente sofrida. para me ajudar a domar meu orgulho e minha vaidade. para ser útil, porque de gente que promete maravilhas e só atrapalha essa terra já está farta. será que posso mesmo tudo isso? me assusta a hipótese do erro e do fracasso porque não se pode agir irresponsavelmente quando se trata da vida de outras pessoas. aprendi isso na PJ e depois no trabalho com mulheres recicladoras que observei em Porto Alegre. mas agora me confronto com a prática e me sinto demasiado pequena, demasiado jovem, demasiado apaixonada. e rogo a Deus que essa paixão que me mobiliza não queime minha alma.

foi difícil controlar o choro que me ameaçava compulsivo, abandonada na poltrona do ônibus lotado. fazia muito tempo que não sentia a vida gritando tão radicalmente em todas as fibras do meu corpo e do meu pensamento e quando isso acontece a sensação é de que se vai arrebentar por dentro, explodir em milhares de pedaços que se perdem no espaço como milhares de estrelas brilhantes. o corpo parece demasiado frágil para tantas coisas maiores que a própria vida. estou diferente comigo depois deste final de semana. talvez seja tempo de me guardar na concha, porque a maré da minha existência está revolta.

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