“Sob o comando da vontade de poder, da recusa do sagrado, da necessidade compulsiva de reduzir a natureza e os outros homens à condição de objetos de sua ganância, ele perde simultaneamente a noção de seu lugar no universo e o contato com potencialidades constitutivas de sua humanidade. Por isso, vive um desenraizamento de sua própria natureza humana. Diante de si e sem continente que lhe dê abrigo, o homem contemporâneo é, em diversos sentidos, o sem-terra.” (Da foz à nascente, Nancy Mangabeira Unger)

neste final de semana descobri para vão as centenas de garças que cruzam o centro da cidade apressadas todo final de tarde. estive em uma pequena barragem, na zona rural, com duas amigas, dois amigos e duas crianças. lugar simples e encantador, com água limpa, calma, fresca, rasa, cheia de peixinhos e plantas que lambiam meus dedos dos pés como suaves cabelos sob a água. do outro lado da margem, umas três ou quatro árvores desgalhadas servem de abrigo para as garças todas as noites.

claro que é apenas um dos pontos de encontro das garças, existem outros na cidade, segundo soube. mas de todo modo, o espetáculo é impressionante. o sol suavemente dourado, um vento fresco – artigo de luxo nestas paragens – dão o sunal para a chegada dos bandos de garças. lindas e barulhentas, centenas e centenas delas pousam sobre os galhos de algumas árvores e lá ficam contando para o universo o dia fantástico que tiveram. os galhos nus, me explicaram, ficam assim exatamente pela presença delas. sua nudez, portanto, não é sinal de morte, mas de vida, uma vez que sinalizam que ali se encontram todas as tardes milhares de aves brancas que chacoalham as folhas, defecam, catam piolhos, espalham sementes e gastam o resto de sua agitação até o anoitecer, quando o mundo do dia silencia.

todas as tardes as vejo passarem sobre a cidade, altas e alheias ao caos ocidental que nos esmaga mesmo aqui, nas bordas da floresta. alheias, mas não imunes. elas parecem voar em direção à barragem desde um tempo que não se pode datar, talvez sem se importar com a erosão a dez passos de seu ninhal, no lugar de onde foi tirada a terra para a barregem. até quando lhes permitiremos – nós que tudo podemos – serem lindas garças que voam todas as tardes para as árvores na barragem? por quanto tempo teremos aquela água viva e sagrada?

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