considerações de um domingo insone

da partida

dia desses um amigo, também teatino, me desafiou a escrever sobre a partida. engraçado que eu estava justamente em um momento de vivenciar a partida. minha colega de apartamento, Elza, estava de muda para Rondônia. foi estranho estar feliz com a partida pelo que ela representa de possibilidade de segurança para ela, mas triste por perder a convivência com uma pessoa com quem tinha muito a trocar. em dois meses, a sertaneja entrou no meu coração e tive aquela grata sensação de reencontro.

já na primeira semana de convivência ela me surpreendeu com uma demonstração de sua identidade. combinando como seria o ritmo de limpeza da casa, ela dizia que tinha costume de manter a louça limpa, passar o pano durante a semana, etc. e arrematou indiscutível: “é que eu sou sertaneja, fia“. no tempo em que convivemos, Elza me mostrou a força desse ser mulher sertaneja. jovem, três anos mais velha que eu apenas, é a única filha, dentre vários irmãos, que chegou até a faculdade. queria psicologia, mas passou em Letras. cursou porque talvez não tivesse outra oportunidade de tentar ingressar na universidade. professora de vida sofrida, sofre com o sofrimento dos estudantes, que sabe serem pobres, trabalhadores, com poucas perspectivas e preocupações demais para conseguir se concentrar na escola e seus currículos engessados. sabia que tinha dentro da sala estudantes que precisavam apenas de um estímulo para serem brilhantes dentro de turmas inteiras com extrema dificuldade em mergulhar no mundo das letras das escolas. difícil dar atenção especial para dois ou três dentre os quinhentos somados das duas escolas em que dava aulas de português, literatura e inglês. então me dizia, com a sensação de impotência gritando dentro de si “eu sei que eu devia fazer mais, mas o que eu posso fazer com eles, Gisele?

passou em um concurso para a rede estadual de ensino de Rondônia e resolveu deixar a vida de professora interina, que não tem férias remuneradas e passa dois meses sem salário todo ano. foi embora me dizendo “Gisele, pra gente que é pobre, mulher e professora, a vida é difícil“. e assim perdi a sertajena que fez com que me sentisse em casa aqui em Alta Floresta. meu coração vai ser eternamente grato pela recepção sincera, honesta e cuidadosa que Elza me proporcionou aqui. oxalá ela encontre em Rondônia alguém que facilite a vida dela como ela facilitou a minha aqui.

da saudade

tenho sentido com mais intensidade saudades da minha mãe e da minha irmã. me anima e conforta pensar na valentia da minha Maria Valéria, mas quando me sinto frágil como agora seria bom deitar a cabeça no seu colo e descansar sob o passeio dos dedos dela no meu cabelo. quando estamos assim, sei que tenho um lugar no mundo. hoje eu sinto falta da proteção que minha Maria Valéria oferece às minhas fragilidades, mesmo que não as saiba, mesmo que não as entenda.

parece que a distância dilata o valor das pessoas que a gente ama. não que eu não soubesse a exata importância dessas duas mulheres na minha vida, mas aqui de longe a falta desse esteio forte para minha alma teatina faz com que as ame e valorize mais ainda. Nana é meu esteio moral e espiritual. é o olhar severo e amoroso dela que corrige minha vida, cutuca minhas fraquezas, me impele a repensar todas as coisas. Nana me faz forte com sua força de irmã e educadora. me abre os olhos com sua lucidez inequívoca. aqui eu compreendi o exato sentido da palavra saudade – essas duas mulheres são um pedaço fundamental de mim. é sobretudo pela existência delas que sou Gisele. aqui eu conheci a dor da distância de quando a alma sabe que minha mãe precisa de um abraço meu. aqui conheci o valor da oração porque tudo que posso é pedir pela sua paz, segurança e felicidade.

Tem coisas que tem seu valor, avaliado em quilates
Em cifras e fins, em cifras e fins
E outras não tem o apreço
Nem pagam o preço, que valem, pra mim

da querência

também sinto falta da paisagem da minha vida toda, do frio e das cores do inverno na minha terra. sinto saudade dos abraços sob os casacos de lá, de tomar chimarrão na redenção, comendo pipoca até ver o sol descer lentamente, bordando o céu de fogo e vinho. sinto falta do vento gelado que sopra do Guaíba enquanto o sol mergulha nas Ilhas. trago gravado em mim o amarelo suave da chuva sob os postes de luz. a luz dos dias na minha terra é sempre mágica inverno. alguns dias nublados têm uma luz pesada e cinza como chumbo, outros dias de vento trazem a melancolia da luz branca e pálida. se estivesse em casa agora, estaria escrevendo enrolada num cobertor, com os pés enfiados em pantufas de lã e apenas os dedos das mãos de fora, brancos e enregelados. de quando em quando, os aqueceria entre minhas coxas, amando o calor do meu corpo. nessas horas percebo meu aquerenciamento. sinto falta do calor dessa estação. Jacaré descreveu esse calor do inverno gaúcho com uma precisão na palheta e no corte que invalidam qualquer outra tentativa.

Se o tempo vestisse certamente seria sobrepeliz de pelúcia para usar na vasta noite do sul. Redes de gelo articulando-se com o vento das esquinas esfiapadas pela luz pequena dos postes emoldurados de sereno. De longe vem a geada sobre os cabelos do campo, que trazem o frio até a beirada dos braseiros. O andar acende e a ponta dos dedos roça a pelica e o couro seco dos abotinados. A hipnose aldeã coletiva faz recolher a lenha seca e fria para o mistério da labareda, sua língua infernal e lúdica dispõe as pessoas em círculos de instinto e prevenção para que se contem os causos. As pessoas sós fazem o fogo para imaginar sua gente que em algum canto do sul está repetindo em contraponto o estalo da lenha nos nós dos dedos, com fisionomias que se guardam nesses álbuns da memória dos invernos. Desintegra e depois reúne o frio os que são dele. Roupas pesadas, mantas coloridas, botas reluzindo graxa de rim de ovelha. Sensação de névoa nos cabides, luz recolhida nos lenços sem partido, um pouco de mansidão e uma meninice instalada, curva e incompleta, na lã da boina.

da floresta

esse lugar desafia minha autoconfiança e talvez eu tenha vindo para cá exatamente para aprender onde está minha força. minha amiga gaúcha – que Deus teve a benemerência de colocar nessa mesma estrada – parece que adivinhou que meu espírito estava alçando vôo perigosamente longe neste final de semana. fomos ver o sol se pôr num sítio onde as tardes silenciam com a revoada das garças para umas poucas árvores. as pessoas daqui chamam de Balé das Garças. junto com outras quatro pessoas já daqui, tive que conter meu espírito que ameaçava se expandir mais do que meu corpo pode suportar. deitada sobre uma plataforma de madeira que avança um tantinho sobre um lago e sentindo a imensidão do céu, a saudade quase foi embora. esse lugar tem uma força e uma magia que me afrontam, me assustam. parece que todos os pássaros me olham perguntando por quanto tempo mais permitirei que eles cantem.

sinto que tenho um serviço importante para fazer aqui, mas também sinto minha fragilidade muito mais intensamente. será que sou mesmo capaz de fazer diferença aqui? será que saberei devolver aos meus ouvidos a capacidade de escuta poética da Natureza? eu estava certa quando disse que vinha para cá não pelo desafio, mas para colocar minhas crenças e certezas sob teste. vim aqui saber para que eu sirvo neste mundo. e então a idéia de que posso estar plantando uma árvore sob cuja sombra jamais vou descansar troveja na minha mente. como vou fazer para que essas árvores cresçam depois de mim?

do sagrado

andando no mato hoje, com os pés afundados na lama, a pele marcada por uns galhos, entendi o quanto é surpreendente eu estar na Amazônia Legal para quem me conheceu de saia justa, salto alto, echarpe e sobretudo. estou num lugar onde macacos ainda andam soltos pelas manchas de floresta que bordeiam a cidade. um lugar onde centenas de garças voam todas as tardes para as mesmas árvores com a precisão de quem sabe que só sua beleza pode apresentar alguma resistência a nossa voracidade ocidental. tomando emprestado o adjetivo usado por um amigo recentemente, isso torna meu requinte inútil e desnecessário.

deitada sob o céu da Amazônia Meridional, mirando as primeiras estrelas da noite e a dança dos galhos verdes, senti uma paz para a qual não existem superlativos. não conheço palavras que possam traduzir o que sinto sob este céu. não há como dividir essa sensação de transcendência, de experiência do sagrado. ainda que eu tivesse coragem de apertar as mãos que poderiam compreender o que sinto, não sei se seria capaz de dividir a imensidão que se apodera de mim nesses momentos. me falta um pedaço aqui, falta raiz, mas junto disso tem a ciência de que é aqui mesmo que eu deveria estar neste momento. em nenhum outro lugar.

a floresta é uma experiência radical e eu não sei como olhar para ela, entender seus sinais, andar em caminhos seguros. não sei como caminhar nesse chão, não o conheço. hoje compreendi isso também e todos os arranhões nas minhas pernas me recontam essa história. creio que só eu me machuquei na trilha. parece que a Natureza diz que minha casca ainda é muito fina para encará-la.

das pessoas

felizmente Deus jamais nos abandona e me gratificou com algumas pessoas especiais nessa passagem por aqui. tenho conhecido pessoas que vibram em uma sintonia muito próxima da minha. é incrível a nossa capacidade de se aproximar das energias que são próximas a nossa. não é preciso muito para se conectar com as pessoas que nasceram da mesma baga que nós. a sensação é de que existem muitas almas gêmeas a nossa, espalhadas pelo mundo. quando as encontramos, isso na verdade é um reencontro, porque basta um olhar e um sorriso para sabermos que já andamos juntas outras vezes. essa sensação de reencontro é uma das coisas que me faz crer em Deus e no seu amor.

aqui há várias pessoas plantando árvores de crescimento lento. conforta saber que elas também não gozarão as sobras de seus galhos estendidos no horizonte. talvez estejamos aqui para descobrir juntos como fazer nossas árvores crescerem depois de nós.

do gostar

dentre essas pessoas, encontrei um olhar que se delineia especial em um tempo assustadoramente exíguo. um olhar que me captura e talvez não saiba o quanto é capaz de desnudar minha alma. faz tempo que aprendi que se pode gostar de uma pessoa de muitos jeitos diferentes, tudo ao mesmo tempo sem sustos ou constrangimentos, mas estranhamente perdi a coragem de compartilhar isso com esse olhar que me despe tanto quanto se esconde de minha compreensão. talvez eu também tenha vindo aqui para perder o medo do gostar, da entrega e da incondicionalidade. nesse momento não sinto que esse par de olhos detanha o mesmo poder daquele outro antigo que me tinha inteira. da mesma forma que se pode gostar de uma pessoa de muitos jeitos, alguns gostares não se repetem.

no entanto, sei que ando fugindo do gostar verdadeiro. nos últimos três anos, desde que fui embora do abraço mais perfeito que já tive, pude gostar de muitas pessoas especiais que cruzaram meus dias, mas não me permiti gostar delas como poderia. algo em mim acaba com a entrega quando o dia amanhece. nunca disse para os meus romances o quanto eles me tiveram inteira durante a madrugada. quanto tempo ainda vou precisar passar para permitir que alguém se aproxime realmente de mim? tenho medo da intensidade das coisas que sinto e da velocidade com que elas podem mudar. tenho medo de que esse olhar que me desnuda possa compreender isso quando olha dentro da minha alma porque talvez não seja fácil mergulhar no meu caos constante. é preciso cautela com alguns olhares que nos capturam como uma teia. nesse momento estou como um inseto imprudente que a aranha não notou.

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