quando saí da terrinha, todo mundo ficava fazendo onda com a possibilidade de eu me perder em alguma tribo de índios com nomes duvidosos. três meses e um tatinho passados, finalmente conheci uma aldeia. ou não. não sei mais.

bem, índios do século 21 são bem diferentes daquilo que nossa imaginação colonial pseudobranca acha que índios devem ser. mas essa história mesmo vai ficar para uma reportagem, porque não vou furar a mim mesma num blogue…

o caso é que passei o final de semana na Aldeia Kopenoty, dos terena de Mato Grosso. um punhado de casas espremidas em um assentamento da reforma agrária em mais uma das esquizofrenias do governo, que cada vez mais se parece com os Invasores de Corpos, ou uma entidade zombeteira que baixa no corpo dos caboclos que sentam naquelas cadeiras místicas do Planalto Central. bueno. saí de lá com a cabeça revirada. imaginem como ficou a minha já caótica e amalucada cabecinha de pisciana…

saí de Falta Floresta 11h30 da manhã pra chegar em uma cidade que, de carro por aquele queijo suíço que chamam de rodovia, leva três horas pra chegar. Santa Helena, a cidade cuja mudérníssima rodoviária é atração turística no Nortão, me aguardava às 15h.

Ônibus para Peixoto de Azevedo?
Só tem as 17h30.

pelo menos sou previdente e antes de sair havia comprado o último best seller da Nova Cultural. gastei as duas horas e tanto almoçando dois pães de queijo e um suco de goiaba, enquanto devorava o romance histórico. nada com um bom romance mulherzinha para distrair os pensamentos com coisa alguma. quase deu pra terminar a história de Hall e Dakota, mas resolvi deixar a noite tórrida de amor e o casamento para a volta. ando assustadoramente sábia…finalalizei a leitora instrutiva na espera da volta.

a noite estrelada do Norte me recebeu em Peixoto passando das 19h. fominha e nada apetitoso na rodoviária à espera do carro que ia me buscar para, finalmente, chegar na aldeia passado das 21h. enquanto o carro não vinha, mastiguei amendoins açucarados olhando tristemente a barriga que se avoluma denunciando meus pecados. 20h e o funcionário da rodoviária querendo gentilmente fechar as portas, e eis que surge a carruagem mágica. uma D20 novinha em 1900 e bolinha, pilotada por Marcelo, um agente de saúde terena.

Você é a jornalista?
Sim
Valquíria, né?
Gisele….

60 e poucos quilômetros de pó e costelas de vaca pré-cambriana e chego na aldeia Kopenoty. desembarquei direto no templo onde a missão evangélica realizava seu culto. ok. eu já sabia que tinha uma igreja lá e que a aldeia era bem urbana. mas a piração estava só começando. findo o culto, um animado grupo de adolescentes começa a dançar: batidão do Senhor na aldeia. fantástico e assustador. o final de semana todo gravitou na órbita de Hosana. Amém? Amém!

.:.:.:.:.:.:.:.:.:.:.:.:.:.:.

primitivos somos nós, não-índios. por que eles deveriam estar nus, morando em ocas, cozinhando farinha de mandioca no chão enquanto nós assistimos a novela das oito de antena parabólica? quem é você pra dizer que eu não sou descendente de europeus, só porque tomo chimarrão, trago um enfeite de palha de buriti no braço e medito contemplando Tara Vermelha? se eu disser que sou, sou e pronto. quem sou eu pra dizer que eles não são índios?

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