faz tempo que não acontecem algumas coisas de que gosto muito. parece sinal de que as coisas todas são cíclicas, e que as melhores são realmente boas de mais para serem corriqueiras. por isso é preciso saboreá-las como a uma taça de bom vinho, ainda que não se saiba o ritual de degustar bons vinhos.

faz tempo que não escrevo um bom poema, daqueles que os versos ficam tamborilando na minha mente por dias, sendo moídos e remoídos, recortados e recompostos, medidos palavra a palavra. talvez a faca tenha perdido o fio e eu tenha perdido a precisão do corte. o que não significa que não possa ser afiada novamente, mas apenas que não encontrei a chaira adequada. escrever um bom poema me dá um prazer indescritível, porque me sinto inteligente e maravilhosa.

faz tempo que não escrevo bons textos no blogue também. apenas me ocorrem fragmentos, suspiros e reclamações. nada daquelas coisas que parecem verter minha alma, que os amigos se animam para comentar. talvez o silêncio também seja uma forma de me mostrar que este é só mais um modo de exibir minha vaidade e meu desejo de aprovação. o blogue é isso, mas ainda outras coisas. é também o exercício ambicioso da escrita, a escravatura das palavras – ainda que eu não saiba quem escraviza quem – e do espelho, meu jeito de dizer o que penso que sou para comparar com o pensamento dos outros.

na verdade, faz tempo que não sei quem eu sou. cada dia me olho no espelho e vejo algo diferente do que imagino parecer. eu imagino meu sorriso muito diferente daquilo que vejo nas fotografias que tiram de mim e confesso que há apenas duas em que o retrato corresponde a meu imaginário. em geral, também me imagino bem mais magra e elegante do que sou na verdade. talvez apenas meus olhos e minha voz correspondam ao que imagino que sejam. à noite, quando leio e reflito, me envergonho da minha vaidade e da minha falta de humildade. e do quanto sou dissimulada porque sei exatamente o que sou e que os outros não percebem. e quando penso essas duas coisas juntas assim, vejo que sou louca: eu sei ou não sei quem sou?

as pessoas em geral me dizem que sou corajosa por ter vindo sozinha para cá sem conhecer absolutamente ninguém. mas o que para os outros é coragem, para mim é desapego. não me vejo como uma pessoa corajosa, não fiz nada de extraordinário. apenas mudei de endereço em busca de um trabalho que me fizesse uma pessoa mais feliz. e me pego alguns dias sabendo que, apesar de estar fazendo um bom trabalho, não estou sendo brilhante, nem sequer fazendo o melhor que posso. faz tempo que não me sinto extraordinariamente competente.

na verdade, só me senti assim quando concluí minha monografia, e isso foi em janeiro do ano passado. e mesmo sendo bom ouvir alguém contestar, no fundo de nada adianta, porque isso não é uma questão de aprovação. ouvir que você é uma pessoa extraordinária é diferente de sentir-se extraordinária. faz tempo que não me sinto extraordinária e essa é uma sensação maravilhosamente transbordante.

faz tempo que não me apaixono de verdade. daquelas paixões que fazem com que a gente conte os segundos de ausência. a sensação de frio na espinha com a proximidade de um beijo é deliciosa, gostaria de tê-las mais vezes ao longo dos meus dias, mas infelizmente sei que se essa fosse uma sensação corriqueira, não seria tão preciosa. não é sem razão que coisas muito boas são chamadas de raras em castellano, muy raras. nesse momento, em que todas as coisas caminham bem, me sinto segura no caminho escolhido, sinto que posso crescer, ser melhor, fazer diferença, gostaria de sentir um desses arrepios. nos últimos beijos que dei em muitos meses, mesmo antes de vir para cá, não encontrei isso.

aquela sensação maravilhosa de flutuar quando os olhares se capturam na iminência de um beijo, se medem por longos segundos, se aproximam. o palpitar descontrolado do coração quando os lábios se tocam e em seguida sinto a carícia de uma mão na nuca. a sensação de que o mundo, de repente, se torna outro, feito de outra matéria, de sonho talvez, é tão deliciosa! faz tempo que não sinto o desejo de jamais terminar um beijo, de que as bocas jamais se separem, que o tempo congele. esses beijos são especialmente inesquescíveis quando acompanhados da sutil anestesia do vinho. também faz tempo que não tomo vinho. e ontem, para piorar, assisti Side Ways. não consigo tirar do pensamento a cena em que Miles toca o pescoço de Maya: é essa sensação que me faz falta agora.

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