diário de viagem três: la ciudad

vista de baixo, Guayaquil é uma cidade bonita, limpa e organizada, com muitos guardas espalhados pelas ruas. parece ter um sistema de transporte público eficiente – apesar de confuso para estrangeiros. é bem turística e agradável. mas fiquei com a impressão de que deve ter outra Guayaquil escondida atrás dos Cerros, dos viadutos novos e bonitos e do Malecón. a economia do país foi dolarizada em 2000 e, segundo me disse Franklin – um jornalista de Cuenca, morador de Quito, que organiza expedições pela Amazônia e já foi do Ecuador ao Brasil pelo rio Amazonas – o salário médio dos trabalhadores não passa de 160 dólares. em Guayaquil, o ônibus custa 0,25, uma garrafinha de água no centro uns 0,30, almoça-se no shopping com algo entre três e cinco dólares, a cerveja long neck custa um e uma caipirinha num bairro boêmio custa seis dólares – acredite!

O Cerro Santa Lucia, onde fui beber com outros jornalistas – é claro! – na última noite, é o lugar onde a cidade começou. um morro de casinhas empilhadas desde a beira do rio Guayas, cheio de charmosas ruelas tortuosas e escadarias. foi “revitalizado” há pouco tempo, mas desconfio que o que se fez foi expulsar os pobres de lá para retomar o lugar como ponto turístico.

a cidade inteira foi construída a partir do rio de águas muito barrentas, que não tem mais um sinal de mangue sequer e todas as construções vão até quase dentro da água, sem margem nem nada. do outro lado do rio, umas ilhas parecem bem preservadas, ainda com seus mangues e matas nativas. só parecem.

vista de cima, Guayaquil parece uma folha de adesivos da qual todos os selos foram retirados sobrando apenas as bordas. tanques e mais tanques de criação de camarão retalharam praticamente toda a região. os criatórios mantêm a orla intacta – o que dá a aparência de preservação pra quem vê da outra margem – mas instalam os tanques poucos metros depois e matam os mangues.

na orla do Guayas há um imenso calçadão chamado Malecón, lugar muito bonito, com vários monumentos, torres para ver o rio e a cidade do alto, lojas, lanchonetes e restaurantes. tudo muito limpo, organizado e ordeiro – e extremamente turístico, tanto que parece quase vedado à população local. em vários pontos, há placas dizendo que a administração do Malecón (que deve ser a prefeitura) se reserva o direito de impedir a entrada ou permanência de pessoas no local, privatizando um local que deveria ser público. qual será a Guayaquil para os guayaquileños?

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s