outro domingo insone

tem acontecido quando não estou viajando ou tomando banho de rio. acordo quase meio dia e passo o domingo deitada na rede, lendo, ouvindo música e cochilando. daí passa da meia noite e nada de sono para dormir. se ouso deitar, fico fritando insuportavelmente nos lençóis, fantasiando o quanto minha noite insone seria mais interessante se o dono de um certo par de olhos azuis estivesse a distâncias menores que 50km. bueno, o que me resta senão escrever um texto insone que será postado rapidamente na manhã seguinte, quando acessar a internet?

aproveitei as horas insones para terminar de escrever uma proposta de investigação sobre a recepção do jornal que estou escrevendo. já tinha começado há uns três finais de semana, mas passei os últimos lendo alguns livros necessários para seguir redigindo. ficou bom. poderia até me aventurar em um mestrado com ela se não fosse muita falcatrua fazer mestrado estudando o jornal que eu mesma faço. tá bom que a gente pesquisa para resolver o que nos incomoda, mas não precisa ser tão descarada a coisa. bueno, tá pronta. vou apresentar pros meus “chefinhos” e ver se eles bancam a gasolina e a disposição de minhas horas para isso no ano que vem. também vou mandar pras minhas mestras verem se não estou dizendo alguma bobagem nas seis páginas que acabei de escrever.

depois disso fiquei pensando que chegou dezembro. dia 21, às 21h55, uma aeronave da TAM estará me devolvendo à terrinha, depois de oito meses de aventura amazônia. mas só por alguns dias. 10 de janeiro estou de volta para, uma semana depois, pegar uma estrada que a estas alturas certamente estará intransitável, até Nova Bandeirantes. 2006 promete ser intenso de estradas de novo. talvez mais que este ano já foi. tentei contar minha quilometragem desde que cheguei aqui, mas desisti. só Cuiabá, que são 840km, foram cinco viagens, contando com a passada por lá para ir ao Ecuador. dá 8.400km de estada no total.

fora uma vez em Nova Bandeirantes, onde vou estar na semana que vem de novo; duas em Marcelândia; uma em Apiacás, que é aquela guampa do mapa; uma em Paranaíta; uma em Nova Monte Verde; duas em Nova Guarita; três em Terra Nova do Norte; duas em Colider; uma em Matupá; duas em Peixoto de Azevedo, onde fica a Aldeia Kopenoty; quatro em Guarantã do Norte, duas delas para ir ao Pará, onde estive na Reserva Biológica das Nascentes da Serra do Cachimbo uma vez e no Campo de Provas da FAB outra; fora várias em Carlinda, que não conta porque é 30km daqui de Alta Floresta, é como ir pra Alvorada quando tu mora em Porto Alegre. não sei as distâncias de Alta Floresta pra nenhum desses municípios, mas sei quantas horas leva pra chegar lá na seca. todos entre duas e quatro horas – fora Paranaíta, que leva cerca de uma hora, um pouco menos. é chão. e dos bem empoeirados ou enlameados – não tem meio termo: é atoleiro ou polvadeira!

fiz aqui muitas coisas que nunca tinha feito na vida. a começar pelos meios de transporte que inaugurei: a moto e as voadeiras, uma das quais já virou no meio do Teles Pires em uma corredeira… aventuras…! tentei a bicicleta, mas preciso comprar uma que tenha a barra inclinada porque fiquei com tudo roxo de cair naquela porcaria aprendendo a freiar. além de achar uma santa alma que suporte meu peso e meu medo de me estatelar no chão com gosto. faltou aqueles teco-tecos que a moçada usa nos sobrevôos, e que ainda não deu lugar pra levar a jornalista junto. e um helicóptero – que é bem mais complicado de conseguir, mas juro que ainda experimento!

também tomei o primeiro banho de cachoeira da minha vida aqui. e graças a Deus não foi só um, porque é uma das coisas mais maravilhosas do mundo tomar banho de cachoeira. a força da água gelada, o barulho, é tudo magnífico. dá uma sensação única de comunhão com o cosmos que não tem igual. aqui eu afundei na lama até o joelho – uma sensação desesperadora. chorei em silêncio assistindo ao balé das garças num final de tarde. fui atacada por uma arara canindé maluca que quase me escalpelou. achatei a bunda na carona de uma moto só pra tomar banho de rio. praticamente escalei uma ladeira pra tomar banho de cachoeira no meio de um arco-íris na mágica Chapada, onde também boiei no poço de uma nascente que me encheu de uma energia tão maravilhosamente boa que tudo que consegui pensar foi “obrigada, Deus, por me dar vida”.

não quero voltar a morar em uma cidade grande. não mesmo. não agora, pelo menos. quero mais é me enfiar no mato e ver coisas maravilhosas que só não presta atenção quem esqueceu que todos nós temos um fio-terra que precisa ser descarregado com regularidade. deve ser por isso que nas cidades cheias de cimento, aço e poluição eletromagnética as pessoas surtam tanto, ficam tão doentes e mau-humoradas. aqui até meu humor melhorou um pouquinho! não tenho acordado azeda todas as manhãs – é esperar uma meia hora pra tentar se comunicar comigo que tudo fica bem.

tentei fazer tai chi chuan e yoga, mas a quantidade de viagens inviabilizou as aulas. é o mesmo motivo porque ainda não aprendi a nadar – e vou ter que ignorar a alergia à cloro porque tenho ido tanto pro rio que está se tornando extremamente importante saber nadar. e aqui consegui parar de fumar também. faz bem pouco tempo aliás, e nem tenho coragem de comemorar, porque tentei tantas vezes nesses últimos 12 meses que sei lá. não anotei o dia que fumei o último cigarro, mas foi logo que voltei do Ecuador, em uma recaída acompanhada de cerveja e um único Free. depois disso já tomei muita cerveja, várias vezes com gente fumando do meu lado e tenho resistido bravamente – salivando, mas bravamente. é meio que a terapêutica do Analista de Bagé, mas como não posso aplicar o joelhaço em mim mesma, güento no osso.

foi aqui também que me apaixonei intensamente, depois de bem uns quase três anos só de encantamentos passageiros e fugazes. mas está muito longe pra ser meu. e talvez muito longe de ser meu. temos um mesmo gosto pelo mato e pela aventura, um trabalho que nos coloca sempre (e muitas vezes de sopetão) na estrada. temos sonhos parecidos e um jeito romântico que só a gente entende como pode ser tão melado e não enjoar. passamos o dia masturbando o celular pra dizer coisas tão importantes como “acordei com dor de garganta e com saudade de ti”. mas suspeito de que não há concerto. não é possível sair boa música de instrumentos tão complicadamente arranjados e dispostos. é pena, porque neste momento, sinto que meu coração está completamente bagunçado e balançado e não vai conseguir olhar pros lados e perceber outras coisas mais simples, mais próximas e mais promissoras. fazia tempo que não me sentia tão confusa. mas também fazia tempo que não me sentia tão bonita, desejada e especial. então o que desejo fazer é esperar mais um pouco. só não sei exatamente esperar o quê…

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