quando meus ombros se curvam sob o peso do Norte
ergo a cabeça e contemplo a via láctea
e com seu mágico sorriso pisca-piscante
ela coloca minhas dúvidas em outro lugar

Cuiabá e as sensações urbanas

quase um ano depois não posso dizer que foi sem dor alguma, mas não tenho dúvidas de que a mudança de latitude me fez uma pessoa mais feliz. passei o último final de semana com meu namorado em Cuiabá e senti muita falta de Porto Alegre. não que sejam cidades parecidas – muito longe disso, mas coisas da minha antiga urbanidade tomaram espaços nas minhas horas e me deixaram pensativa. agora me dou conta de que talvez tenha sido por isso que Augusto perguntou tantas vezes se eu estava bem.

andei de ônibus sozinha lá pela primeira vez e me lembrei que não tem diferença nenhuma entre fazer isso em Guayaquil ou Cuiabá, exceto pelo excesso de calor nos daqui e o excesso de música alta nos de lá. é simples, você pergunta para alguém no ponto de ônibus como faz para chegar a x lugar, embarca e vai. assim como foi simples mudar de Porto Alegre para Alta Floresta – cuja única semelhança é o nome composto. você arruma um emprego, pega um avião e vem. se a parada vai ser a correta, se vai demorar pra chegar ou se você pegou o caminho errado é algo que você só descobre durante a viagem.

ouvimos uma palestra no sábado em um bonito parque municipal chamado Massairo Okamura, uma mancha minúscula do Cerrado que sobrou no meio do asfalto, mas mesmo assim bonito e pacífico como todo lugar cheio de árvores. fomos para um hotel barato e decente no centro, almoçamos, beijamos, amamos, dormimos e pedimos comida chinesa. estava com saudade de yakisoba e carne com moyashi. comi de hashi – e ele também, para minha completa surpresa! lembrei que em Porto Alegre comia isso com freqüência e senti muita saudade do rolinho primavera do restaurante chinês-vegetariano que tinha em frente ao Clínicas (será que ainda existe?). depois assistimos televisão juntos na cama, coisa que nunca tínhamos feito. dormimos abraçadinhos sob o edredon, uma dádiva só possível com o auxílio da tecnologia naquela cidade infernalmente quente. senti muita saudade das noites de inverno da minha terra, e do quanto é delicioso vestir pesados e elegantes casacos de lã.

no domingo, caminhamos pelo centro da cidade e descobrimos o Morro da Luz, outro pedacinho verde que resistiu à modernidade tola e foi (precariamente) preservado pela prefeitura. curtimos a delícia de caminhar no frescor das trilhas entre as árvores e nos perguntamos porque diabos Cuiabá tem tão poucas árvores se elas tornam a vida tão mais agradável. compramos um jornal e picolés e sentamos na praça em frente à igreja, olhando as notícias da semana, a programação de cinema e sonhando com uma viagem de férias pela Argentina. voltamos, amamos, almoçamos e dormimos novamente aconchegados sob o edredon. sono bom de quem se ama intensamente e se entrega cada vez mais tranqüilamente. jamais me senti tão bem.

para completar o final de semana urbano, fomos ao shopping. primeira parada: fila da bilheteria do cinema. ele queria um filme de amor, eu um policial. vimos o policial porque o gênero fica péssimo em 20 polegadas e a sala de cinema perto da minha casa fica a 300km. depois sentamos em uma cafeteria. um café especial para mim, um expresso comedido para um namorado que está experimentando comigo coisas pouco convencionais em sua vida até então. acho que esqueci de avisar no começo que sou uma pessoa pouco convencional. senti muita saudade da Coletânea e do Café do Lago, com seus cafés mais fortes e saborosos. cinema, pizza, chopp, táxi, hotel. e junto com a imensa saudade da minha vida urbana chegou também a saudade antecipada de quem sabe que a próxima noite abraçados será dali um mês. na segunda entreguei meu amor para o Bandeirante que ia levá-lo à Porto Velho, passeei em uma livraria, entre o agradável aroma de livros não-folheados e então o ônibus. 12 longas horas para pensar em todas essas horas anteriores de amor e de lembranças.

De volta à fronteira

e desde então estou pensando em todas essas coisas e anotando mentalmente que no próximo dia 14 completa um ano que cheguei aqui na fronteira entre a floresta e o agronégocio. ainda não consigo me ver como a mulher corajosa que tantas pessoas me apontam. não sei qual é o problema exato dessa palavra, mas ela me lembra bravura e coisas espetaculares e não acho que fiz nada de espetacular. apenas segui as ondas, ou talvez os ventos. desejei essa vida que levo aqui, desejei um trabalho que me pagasse para viver na estrada, para ver as coisas e contar como elas são para um tanto de gente que não tem como vê-las com seus olhos.

trabalho em um território imenso, onde cabe uma Santa Catarina inteira. são 16 municípios que somam 110 mil quilômetros quadrados, no sul da Amazônia, extremo norte de Mato Grosso. e quando digo extremo norte não é exagero, de Cuiabá até aqui são 840km. dos 16 municípios, sete fazem divisa com o Pará – sendo que um deles faz divisa também com o Amazonas. dois têm uma parte de sua área protegida pelo Parque Indígena do Xingu. isso sem falar nas outras terras indígenas, Capoto-Jarina, Panará e Kayabi; e nos povos mekragnoti, kayabi, apiacá, munduruku, xavante, caiapó, terena – todas, à excessão dos terenas, territórios completamente desconhecidos e inacessíveis para mim, fronteiras entre o desmatamento e a floresta densa, misteriosa, mágica e povoada.

moro num lugar colonizado às avessas nos anos 70 por levas e mais levas de gaúchos, catarinenses, paranaenses e paulistas, todos atrás da promessa de riqueza da lavoura, inspirados pelo boom da soja no Sul e a industrialização da agricultura. também colonizada por levas e mais levas de maranhenses, nordestinos e nortistas atrás da riqueza fácil e violenta do ouro, uma vida levada na fronteira entre a loucura, a necessidade e a ganância – campo minado de malária, febre amarela e corpos que amanhecem entre botecos e puteiros das currutelas. ninguém sabe, ninguém viu e vai acabar afundado no melexete.

moro em uma fronteira onde todas essas coisas tentam descobrir o que fazer para adaptar uma cultura que não serve para essa terra, esse clima e esse regime de águas. e que descobriu nos últimos anos que a cultura trazida nas bagagens, sinônimo de trabalho, prosperidade e bonança no Sul, no Norte significa destruição e morte.

conversei com famílias de agricultores que me olham perplexos e assustados contando que cortaram as castanheiras há 30 anos porque não sabiam o que tinha dentro daquelas pesadíssimas bolas, arremessadas desde 40, 50 metros de altura e que não viam bicho nenhum comendo. hoje descobrem que a Natura compra o óleo da agora chamada castanha-do-Brasil dos índios por um preço muito melhor do que o leite que entregam nos laticínios. mas não há mais castanheiras, elas não crescem do dia pra noite e não sobrevivem sem o resto da floresta.

seus filhos, sem trabalho nem perspectivas, vão se amontoando nas zonas urbanas da região, peregrinam até o Sudeste, se juntam a acampamentos de sem-terras nas rodovias, repetem a saga da conquista trabalhando nas derrubadas do Pará ou nos garimpos que ainda sobraram, viram guachebas. e esses homens e mulheres, com seus 50, 60 anos se sentem taxados de destruidores das riquezas da Amazônia por terem transformado a floresta em pasto. eles vêem a estação seca aumentando, as chuvas diminuindo e os córregos de suas comunidades secarem dia a dia, sem volta. eles sabem que é efeito do desmatamento, mas lembram que foi o governo que mandou desmatar antes. não dá pra descrever o olhar dessas pessoas quando contam suas histórias. algo na fronteira entre a tristeza, a culpa e a revolta.

aqui descobri que as fronteiras não são uma escolha simples entre um passo a frente e estamos em outro lugar. assim como o Pontal de Apiacás divide três estados sempre há mais de um caminho possível. e algumas vezes todos os caminhos levam ao mesmo lugar, como as águas do Juruena e do Teles Pires, que se fundem no Tapajós, ali no mesmo Pontal. aqui descobri as fronteiras que existem dentro de mim.

o que eu teria aprendido nestes 12 meses se tivesse permanecido na minha charmosa Capital, com seus cafés, cinemas e livrarias?

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