Porto Velho, Rondônia

(post atrasado, escrevi ainda lá em Porto Velho, mas não pude conectar antes)

pois bem, cá estou. Augusto está de serviço e vim para passarmos o natal juntos. nosso primeiro natal juntos. há muitas novidades, então aproveitando que estou sozinha no hotel sem vontade de trabalhar no relatório anual, resolvi escrever. como sempre, a história é longa e vamos por capítulos. se no Mato Grosso eu fico no limite entre o Norte e o Centro Oeste, aqui estou totalmente no norte. e ao contrário de Mato Grosso, em uma terra que sabe – ainda que não valorize – aproveitar as coisas nativas.

Madeira-Mamoré

conheci o que sobrou da Mad Maria, a estrada de ferro sonhada pelos gringos para atravessar a Amazônia por terra, já que o Rio Madeira tem muitos trechos não-navegáveis. é inacreditável a estrutura da estação ferroviária na beira do rio, gigantesca, dá uma boa idéia de porque tantos trabalhadores morreram tentando colocá-la de pé em meio à floresta há muitos anos atrás.

hoje, toda a estrutura está praticamente abandonada. com alto potencial turístico, a estação na beira do rio não oferece informações detalhadas aos turistas, os bares e restaurantes possuem estrutura precaríssima (mas oferecem boa comida!) e quase tudo parece bastante abandonado. parece que em breve o trem volta a funcionar, num passeio de 7 km até as cachoeiras de Santo Antônio, o que é uma esperança de melhorias.

mas a cidade não parece conseguir viver da história da estrada de ferro que rasgou a floresta e matou centenas e centenas de trabalhadores de malária – apenas de sua imagem. fotografias das locomotivas estampam postais, o cenário do telejornal e coisas do gênero. informação, no entanto, eu como turista só tenho os poucos capítulos da minissérie global. há dezenas de livros de historiadores locais sobre a estrada de ferro Madeira-Mamoré, mas qual turista se enfia em bibliotecas para conhecer a história daqueles vagões velhos e abandonados na beira do rio?

ok, tem o Museu. mas esse também, apesar de fantástico, está mal identificado e caindo aos pedaços. lá dá pra se ter uma idéia boa da dimensão da história toda e se ganha um livrinho contanto toda a história da estrada de ferro. mas lá dentro, a despeito do esforço dos funcionários em antender os visitantes e manter o local limpo, as fotos estão se perdendo de amarelas e poucas têm data, as peças estão identificadas com papéis amarelos e muitos escritos à mão e dizem as más línguas que a Globo não devolveu todo o acervo que pegou emprestado pra fazer as filmagens de sua minissérie.

Cachoeiras de Santo Antônio

não sei se sou eu que vim na temporada errada – estamos quase na metade da estação das águas, quando todos os rios da Amazônia sobem muitos metros –, mas as cachoeiras daqui são diferentes das que conheço em Mato Grosso. o que vi nas Cachoeiras de Santo Antônio, um ponto turístico da cidade pertinho do centro, são corredeiras..! no acesso a elas fica uma igrejinha de 1913 que, a despeito de parecer completamente abandonada (também), está ativa. espiamos por uma fresta da porta e lá dentro as coisas estão novas: flores, toalha na mesa do altar, essas coisas. do lado de fora, no entanto, mato alto crescendo, latas de cerveja e garrafinhas de refrigerante no chão.

na margem, um lajeado grande, ainda bastante à mostra apesar das águas terem subido uns três metros, segundo informações das pessoas daqui. bonito pra caramba e enche a gente de vontade de estender uma esteira para tomar sol despreocupadamente, ouvindo o barulho da água cruzando veloz sobre as pedras. no final da seca dizem que dá pra quase atravessar o rio por cima das pedras até uma ilha no meio do rio. cada vez que vejo essas coisas fico maravilhada com o ritmo das águas por essas bandas. tudo é superlativo na Amazônia.

Teotônio Vilela

mas não eram exatamente as corredeiras, digo Cachoeiras de Santo Antônio que eu queria conhecer. depois de uma matéria da Ju pra Época sob o sugestivo título “Vá antes que acabe”, queria conhecer as corredeiras de Teotônio Vilela, ameaçadas por uma das hidrelétricas da Eletronorte e Odebrechdt – uma das muitas obras que pretendem tornar o Madeira navegável. o cenário é FANTÁSTICO. isso mesmo, com letras maiúsculas, garrafais. o barulho e a velocidade da água, barrenta agora por causa da cheia mas cristalina durante a seca, é inesquecível. não se pode parar de tentar imaginar em que momento Deus resolveu jogar aquelas pedras descuidadamente por ali, no meio do rio, formando uma enorme e extensa corredeira.

para chegar lá são 34 km do centro da cidade, 14 dos quais em estrada de chão, que levam a uma pequena vila. lá nós encontramos D. Maria Helena, que tem uma garganta das corredeiras como quintal de casa há 20 anos. tomamos um refrigerante no bar de D. Maria Helena e puxei o assunto das obras no rio. ela diz saber dos planos das hidrelétricas e, com um olhar triste e resignado responde: “eu não queria que isso tudo acabasse”. no verão – a estação seca entre abril e setembro – os moradores dizem que há muitos turistas no lugar, atraídos pela facilidade da pesca nas lagoas formadas entre as pedras com a água baixa.

realmente dá o que pensar. há 20 anos o peixe que D. Maria Helena come, pesca praticamente da janela de casa. com as obras – e a empresa já esteve por lá conversando com os moradores, pelo que ela me contou – toda a vila deverá ser removida e ela não faz a menor idéia de onde será reassentada. pelo que conhecemos, provavelmente vá parar na cidade, longe de tudo que conhece, sem seu peixe e seu rio e sem indenização, ou com muito pouca, como reza a tradição de desrespeito à gente simples desse país. afinal, quanto vale um quintal com uma cachoeira?

o mercado municipal

quem vem para qualquer cidade do norte do país não pode deixar de visitar seus mercados públicos, a exemplo do Ver-O-Peso, o mais famoso deles em Belém, esses mercados são lugares de cheiros, cores e sabedorias. em Porto Velho não é diferente. há dois mercados públicos e, apesar de pequenos, em ambos se pode encontrar o melhor da Amazônia: os produtos do extrativismo florestal. óleos de andiroba, copaíba, babaçu, ervas, sementes, cascas e folhas de cheiros variados e muitos usos estéticos e medicinais e a conversa boa das pessoas que conhecem cada um desses produtos da biodiversidade.

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mas a cidade parece não fazer questão de incentivar o turismo, não cuida de seus pontos mais conhecidos, não há informação de fácil acesso para quem vem por conta, sem operadoras de turismo, e o cenário é de abandono e falta de investimento. dá pra entender, depois de praticamente todos os deputados terem sido presos pela Polícia Federal por corrupção, mas mesmo assim é triste de ver. os lugares são bonitos, a cidade é abençoada pela natureza. do alto da Rua Sete de Setembro, em direção ao rio, pode-se ver a floresta alta da outra margem do Madeira – não é difícil parar uns minutos pra admirar o contraste da mancha verde em meio aos altos prédios de concreto. ei, não é uma grande praça cheinha de árvores exóticas e pistas de concreto para caminhadas, é a maior floresta tropical do planeta, ali, pertinho, do outro lado do rio, vista do centro de uma capital!

mesmo centenário, Porto Velho parece uma cidade relativamente nova, fora a Madeira-Mamoré, não se encontram muitos vestígios da cidade velha, o cenário é de decadência e pobreza. percebe-se nitidamente que faltam investimentos sociais e de alternativas econômicas. estamos falando de uma fronteira agrícola recente e que parece caminhar para o mesmo rumo do extremo norte de Mato Grosso: degradação ambiental e falta de perspectivas para as pessoas. entre Ji-Paraná e Porto Velho, voando não muito alto, dá pra ver grandes áreas de floresta recém abertas para dar lugar á pastagens e soja, queimadas imensas da última seca e muitas, muitas manchas que provavelmente são ou foram garimpos.

cada vez mais fico pensando que se esse país não começar a investir pesado em alternativas econômicas que mantenham a floresta em pé, acontecerá com o potencial florestal e agroextrativista da Amazônia o que já aconteceu com a seringa: outro país tropical vai ocupar o espaço e ganhar mercado e perderemos o trem: como explorar os produtos de uma floresta que botamos a baixo?

o natal

ok, relato de viagem feito, falta a parte mais gostosa, inesquecível, romântica e tudo de bom: este é o primeiro ano que passamos o natal juntos. tem sido uma delícia, como sempre tem sido nossos momentos juntos. nossa ceia foi uma pizza portuguesa no aeroporto, muito divertida com Augusto tendo um ataque de brabeza com o mundo depois de eu ter espremido um dedo na porta do carro. tadinho, não acostumou ainda com sua namorada desastrada e fica muito, muito brabo quando me machuco – não comigo, mas com qualquer coisa onde eu tenha batido. bem, uma hora dessas ele descobre que as portas e mesas se movem em minha direção constantemente quando eu passo…

depois da ceia, saímos para um bar bacaninha, com música razoável e Bohemia gelada. ainda não tivemos muitas oportunidades de curtir baladas noturnas juntos. sempre pouco tempo, sempre correndo, eu sempre querendo mais é não dividir a atenção dele nem com o garçom. saímos outra noite em uma casa de boliche – muito divertido! eu jogo bem pra caramba…. tem que ver!

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