relatos da Cozinha

um mês sozinha em Cuiabá. acho que o saldo pessoal está tendendo ao positivo, se eu colocar meus óculos de lentes cor-de-rosa-que-tornam-o-mundo-melhor. achei café e banana passa orgânicos no mercado, consegui morar perto do escritório de modo que não precise de ônibus e já pude usufruir dos benefícios da Unimed consultando um homeopata.

ontem fez um dia chuvoso e lindo, encantador e fresco como o início do outono em Porto Alegre. caminhei pelas ruas de capa de chuva e sombrinha, passando alegre pelas poças d’água, sob um céu cinza claro, quase translúcido, embalada pelo som urbano de pneus no asfalto molhado. coisas que me fizeram retornar a Porto Alegre por alguns momentos, lembrando do quanto o outono lá é delicioso, com seus dias chuvosos e o céu muito azul que abre depois. a cidade fica ainda mais bonita refletida nos milhares de espelhos d’água que se espalham por todas as ruas onde um desnível guarda a lembrança da chuva.

senti saudade de estar na minha cidade em abril e maio, do aroma dos seus muitos cafés, das elegantes saias, mantas coloridas e botas de couro que começam a sair dos armários depois do verão escaldante, da profusão de sombrinhas movendo-se como uma miragem pela Rua da Praia. senti saudade das ruas bonitas e das pessoas alegres da minha terra, dos velhinhos sorridentes pelas tardes do Bom Fim e das pessoas que se cumprimentam mesmo sem conhecer, só porque moram no mesmo bairro.

e com tudo isso, Cuiabá perde seus poucos pontos positivos parcamente acumulados nessas quatro semanas. já me disseram que ainda não conheci a Cuiabá dos cuiabanos, do siriri e das peixadas caseiras, do pequi e da viola de coxo. ok. mas onde está essa Cuiabá? escondida em que centro cultural que ninguém me indica? nas rádios FM ainda não achei nenhuma estação que toque as músicas dos artistas mato-grossenses que não sejam duplas sertanejas – estas dividem o reinado apenas com os padogeiros da vida. nenhum pop-rock, nenhuma banda cuiabana, sequer o tal do siriri.

as impressões desse primeiro mês cuiabano não animam ninguém a vir conhecer a cidade. seus traços mais marcantes são o péssimo atendimento na maior parte do comércio e prestação de serviços e o trânsito demoníaco. aqui manicures dizem que seu pé está sujo; os taxistas esquecem de dizer que o taxímetro está estragado, combinam um preço e no final da corrida querem cobrar outro; os funcionários da universidade não dão informações básicas como a disponibilidade de bolsas de estudo em cursos de especialização e o início das aulas; as atendentes no mercado te ignoram até que alguém com um cargo acima cutuque… e a lista só cresce.

o trânsito – Deus abençoe os pedestres! – é o mais mal-educado e perigoso que já vi na minha curta vida. aqui pedestres não têm vez, a sinalização é péssima, há espaços muito grandes entre uma faixa de pedestre e outra e atravessar um cruzamento é sempre um risco de vida. o que mais vejo são acidentes com motos e jurei que nunca mais pego moto-táxi aqui. para piorar esse quadro vivo de Gosh, tenho a nítida impressão que os motoristas aceleram quando eu tento passar por uma faixa de pedestres que não tem um semáforo para obrigar a parada. mesmo nos semáforos já flagrei muitos carros passando o sinal vermelho na maior cara de pau e os motoqueiros ficam acelerando enquanto a gente passa como que prometendo nos atropelar se ousarmos estar ali ainda quando o sinal ficar amarelo.

controle de velocidade? dizem que a prefeitura retirou porque estava dando muitas multas e poderia-se perder eleitores. agentes de trânsito? duvido que exista um sequer. calçadas? Nos bairros onde tenho circulado, muitas estão tomadas de mato alto em vários trechos, obrigando pedestres – Deus os proteja! – a andar na rua ao lado dos carros. das poucas cidades onde andei, só me lembro de uma com um trânsito pior: Lima, onde tudo se resolve na buzina e os motoristas nunca foram apresentados à funcionalidade dos diferentes faróis dos carros. mas Cuiabá está bem perto disso.

no fim, a adaptação a Cuiabá está sendo mais difícil do que quando cheguei em Alta Floresta. talvez porque aqui estou morando sozinha pela primeira vez – e é muito estranho fazer comida sem ninguém pra dizer que está gostoso, não ter com quem tomar um chá ou um café antes de dormir. nosso ponto de apoio aqui está longe de ter a estrutura do escritório de Alta Floresta e detesto a sensação de alerta para não ser assaltada quando tenho que sair com o notebook. não sei se a cidade é muito perigosa e onde estou acho que é relativamente tranquilo, mas cidades grandes são todas iguais nesse aspecto: deu mole, perde a carteira. não sou paranóica, mas Alta Floresta é um paraíso nesse sentido – o que mostra o quanto nossas cidades estão doentes, são casos de UTI.

mas então coloco de novo os óculos de lentes cor-de-rosa e não posso deixar de reconhecer que quem tem amigos nunca está só. os poucos que tenho aqui têm sido amorosos comigo, o que faz com que tudo acabe bem. no fim é isso o que realmente importa, de tudo que passamos por essa terra de provas e expiações: os amigos sinceros que angariamos e o bem que fazemos a nós e a eles com as pequenas delicadezas do cotidiano e o braço firme nos momentos de precisão – todos precisamos de um desses pra nos apoiar nem que seja uma vez.

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