na estrada

uma das minhas antigas colegas de redação do clic – que me chamava de corajosa, veja só – está se aventurando em uma agência de notícias em Pequim. lendo o bloque dela comecei a lembrar das sensações de tive dois anos atrás quando me aventurei em Mato Grosso.

saí de Porto Alegre com gosto de aventura na boca, sem desejar muitas coisas nem tentando imaginar muito o que encontraria, porque a imaginação é muito amiga da frustração. segui os conselhos do meu amigo tão amado Marcos, de conversas antigas e sem esse propósito, mas que ficaram na memória: abri os poros.

nesses dois anos e um pouco mais deixei entrar em mim a Amazônia e todos os seus superlativo; a política lamentável desse Estado de muitos coronéis; a paisagem da degradação que como em forma de bife diariamente e visto no dedo anular da mão direita; o frescor das cachoeiras; a água de pequenas barragens de do grande rio Teles Pires; as balsas, os atoleiros, as helicônias e as castanhas.

por meus poros bem abertos entraram os terenas e sua história de miséria e resitência; e os kisedje com seus corpos lindamente pintados, sua acolhida generosa e a conversa lúcida – demais para aqueles que esperam apenas o lado exótico dos nossos muitos povos. também entraram histórias de outros povos como os guerreiros exterminados que hoje dão nome ao palácio do governo, os homens grandes e seu retorno à terra de origem, a habilidade política dos kaiabi.

me enchi da imensidão de um pedaço do Centro Oste cheio de complexidades e coisas revoltantes, e de um povo pobre e simples de agricultores, assentados e acampados com quem sempre que posso, calibro minha dose de revolta contra tudo que esse país poderia ser e nossa inabilidade política e social não permitem.

e capturo no ar os cheiros e sabores da Amazônia que os mato-grossenses não sabem o que estão perdendo em não querer ser. encho meus poros sempre que posso de andiroba, cumaru, breu branco, açaí, jaborandi, jambu, camarão seco e – infelizmente muito raramente – de tucupi.

abri meus poros para amigos passageiros que vieram cheios de amizades duradouras e aprendi que pra quem segura a mesma bandeira, a estrada é sempre generosa de reencontros. aprendi a conviver pacificamente com as pessoas aqui mais do que antes e descobri que não sou tão irritante nem tão irritável quanto imaginava porque dividi meu teto com um par de pessoas tão diferentes e nunca me incomodei nem incomodei muito nenhuma delas.

abri meus poros para uma família nova, que veio com tudo ao mesmo tempo: a alegria fraterna de saber que se tem refúgio e ombro, uma enxurrada de problemas duros daqueles que só uma família de verdade segura a onda e se mantém unida e um bebê lindo que me tem por madrinha e por quem me sinto bastante responsável também. é bom ter família e aqui de longe a minha fica cada vez mais importante e também aqui aprendi que é preciso abrir os poros do espírito para ficar perto de quem a gente ama e de quem os quilômetros separam drasticamente.

e finalmente abri meus poros para um amor lindo que me toma inteira, me faz sentir uma felicidade imensa e difícil de traduzir em prosa. e que me coloca de novo na estrada. estou agora em Cuiabá, uma cidade com coisas bonitas e outras tenebrosas que não me recebeu muito amavelmente. quente, sem um décimo das pequenas delícias da minha Porto Alegre e com um trânsito assassino demais para quem sempre foi pedestre. mas na metade do caminho entre Alta Floresta e meu casamento feliz com filhos lindos.

mesmo assim, meu coração não sente que Campo Grande é o fim da linha. ainda tem muito Brasil para entrar poros adentro e ir morar no coração e no conhecimento – essa coisa indefinida que fica no meio dos pensamentos e que a gente só sabe que virou conhecimento quando usa sem perceber e percebe que entendeu.

onde essa estrada me leva? isso eu já sei responder. me leva de volta pro Rio Grande do Sul, com um marido lindo e um ou dois filhos, em algum momento da vida que não está próximo.

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