às vezes os pensamentos se atropelam pela minha cabeça, se misturam, se agitam, e não há o que faça eles se ordenarem, a não ser escrever. escrever como passa, do jeito que vem, e assim tentar compreender o que me vai na própria alma. tarefa difícil essa de entender-se consigo.

depois que conheci Augusto descobri em mim coisas que não tinha visto tão claramente. me descobri uma pessoa inquieta, muito inquieta. olho à frente, tentando espiar sob os véus espessos do destino e do futuro, me vejo hoje em um lugar, amanhã em outro. e não, isso não é novo, percebi há pouco. outro dia estava no ônibus, indo para a periferia e o pensamento fugiu do controle. nessa viagem me descobri mais irriquieta que de costume, mais preocupada, com mais interrogações pairando no pensamento.

talvez porque ande cansada, talvez porque ande insatisfeita com meus dias. ansiosa para que termine a provação dessa distância que me separa do despertar diário com meu amor. insatisfeita. a palavra me incomodou. por que insatisfeita? o pensamento foi buscar a resposta há dez anos atrás, me fazendo lembrar que estou hoje do jeito que sonhava estar nos meus devaneios de vestibulanda. há muitos anos desejo isso que tenho agora. um pequeno apartamento só meu, decorado do meu jeito, com coisas que eu comprei com o dinheiro que ganho ralando honestamente. trabalho e respeito. uma rotina só minha, ninguém para me dar ordens, ninguém a pedir explicações. dona do meu nariz. completamente dona do meu nariz.

pois é bem assim que estou agora. cada pequena coisinha na minha casa é minha, e só minha. comprei sozinha, do jeito que mais gostei, gastando o que achei justo. ou ganhei de gente importante, que são aquelas que eu amo. gosto de tudo que tenho, dos livros, das músicas, dos móveis, das quinquilharias. reconheço minha história quando abro a porta e vejo o cesto de fibra de açaí com os calçados, o cestinho com incensos que comprei na aldeia dos kisedje, a estante de madeira reaproveitada que um colega fez para mim. reconheço meus dias e meu passado quando olho as fotografias escolhidas para os porta-retratos ao tomar café da manhã.

estou como desejei estar desde muitos anos, respirando estrada, conhecendo gentes, lugares. minha alma subia à superfície da pele muitas vezes nos 50 minutos de ônibus entre a faculdade e casa desejando isso. e agora me vem no pensamento “insatisfação”? como assim? não me permito! ou permito?

pois permito, porque desde que me perdi no oceano dos olhos de Augusto, naquele pedaço de paraíso na Serra do Cachimbo, a alma voltou à visitar meus poros como uma tripulação excitada que sobe de chofre para a proa do seu navio. e pede coisas incrivelmente diferentes da vida que tanto sonhei e finalmente conquistei.

desejo ainda a estrada sim, e muito. há muito que conhecer, muitos lugares para ir no país, na América Latina, na Europa… mas desejo curtir essa estrada com ele e com nossos filhos. gosto da minha casa, mas gosto mais ainda quando estamos juntos, na dele ou na minha, tanto faz. e fico lá em Campo Grande imaginando como mudar a decoração quando morarmos juntos. Jack tem toda razão, tudo é melhor quando estamos juntos.

tudo em que tenho pensado são milhares de formas de ficarmos juntos, coisas que posso fazer para ir morar com ele sem abrir mão das outras coisas importantes da minha vida: trabalho e respeito. e já pensei em muitas coisas. tentar o doutorado em meio ambiente e desenvolvimento da UFPR, mas não, não dava pra ficar dois anos morando em Curitiba, ainda muito longe de Campo Grande. então mestrado em Cuiabá, mas na UFMT não achei ainda as linhas de pesquisa que se encaixem no que eu desejo estudar. mandei currículos para as faculdades de lá, mas sem mestrado é dificil. ongs de lá? as pequenas não dão conta de ter comunicação, as grandes já têm os seus em Brasília.

Brasília! Brasília dava pra nós dois. mas não tenho a menor vontade de morar em uma cidade como aquela. na verdaed quero mesmo é mato, cidade pequena, calmaria, criar os bacurinhos soltos, sem medo de serem roubados na rua, tomando banho de rio.

difícil, não tem base aérea nas cidades pequenas. Manaus? ele não gosta. Belém? violenta pra cacete, mas até que é interessante. Porto Velho? só a passeio, ô cidade abandonada essa. Recife! ele já disse que nem pensar. Anápolis não, São Paulo Deus me livre, Rio nem pensar (lá matam milicos por esporte, não quero perder o meu assim). difícil.

e assim, os pensamentos se atropelam. me sinto terrivelmente dividida entre meu trabalho e meu noivo. amo ambos em medidas muito parecidas. especialmente quando estou no meio de agricultores e agricultoras, gente sofrida como as das periferias onde cresci e circulei. eles me emocionam, me fazem sentir especial. é tão pouco o que faço, alguns trabalhos de comunicação comunitária, uma dúzia de palavras de estímulo para que despertem para sua própria força, um e outro conhecimento que tenho na pouca bagagem. verdade é que não me acho tão especial quanto eles dizem, mas também é verdade que esse trabalho faz diferença na vida das pessoas com que tenho cruzado.

finalmente meu trabalho está a serviço da transformação. eu ainda quero mudar o mundo, como quando era adolescente militante da pastoral da juventude. e acredito que posso. trabalho para isso todos os dias. com tudo que tenho, que é meu conhecimento, um tanto de informação e uma dúzia de palavras de estímulo. percebi que muitas pessoas só precisam mesmo disso: uma dúzia de palavras de estímulo, alguém que as olhe como gente valiosa que são. em um mundo em que tanta gente olha os pobres como desimportantes, tão pouco faz muita diferença.

e agora, o que eu faço? nos tempo de Porto Alegre dos muitos romances fugazes e um amor verdadeiro, minha imã dizia que eu não tinha ninguém porque assustava os moços. eu assim tão independente, autônoma, certa das coisas que queria para mim, assustava. os homens jovens, ainda inseguros sobre sua própria vida, em geral não estão preparados para uma mulher assim, ela dizia.

acho que tinha razão pois Augusto é 11 anos mais maduro que eu. muito mais maduro que eu. é para os ouvidos acolhedores dele que confio as minhas confusões. são horas de telefone algumas noites, até acalmar meu espírito. ele me diz que se fosse se preocupar em como se ajustar aos meus muitos planos, já estaria doido. mas o tempo de vida já lhe deu a calma necessária para compreender que certas mudanças se fazem com calma e com os dois pés firmes no chão. ele me ouve cuidadosamente, me acalma, me dá segurança.

Nana tinha razão. quando me apaixonei ela me disse “dessa vez se deixa cuidar um pouco, homens precisam disso”. e é bom ser cuidada. não como mulherzinha, que isso acho que nunca vou conseguir ser, mas como pessoa amada. e me sinto muito amada. com doçura e intensidade. ele me olha como quem me vê inteira, com todas as minhas nuances e loucuras. quer me dar filhos e sorri quando digo que teremos uma casa grande na Serra para acolher os netos nas férias. com ele me sinto segura para ser guria. temos códigos, brincadeiras e uma porcão de doces infantilidades só nossas. ele faz chimarrão para mim e eu lhe ensino a dançar. rezamos juntos algumas noites antes de dormir e ele me dá os sorrisos mais lindos que já vi na vida.

eu tenho as duas coisas que pedi a Deus fervorosamente. um trabalho que me faz sentir digna e um amor que faz absolutamene feliz. mas para me mostrar que temos que merecer as coisas que pedimos, há uma estrada separando os dois pedidos. eu sei que é só por enquanto, mas nem sempre consigo saber isso com o coração também…

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