Sereia

há tempos ela me chamava
piscava como um diamante negro
brilhando pelos caminhos ordinários
eu ignorava seus apelos
e ela me gritava desaforos

há tempos a desejava ansiada
ouvia seus sussurros
sonhava com ela

e então um dia, sem mais nem menos
sem os solilóquios que ensaiara
nem rituais que planejara
tomei a estrada

sereia de piche, concreto e fuligem
uma descoberta a cada curva
um novo rumo a cada dia

e então aconteceu

a estrada me tomou
entrou por meus olhos
se apossou de minha alma

agora sou também estrada, rumo, caminho
andança por terras sem fim nem começo
rotas e mais rotas para dentro de mim mesma

a cada pouco uma nova cidade, novas gentes
mais dessa imensidão verde e amarela
e vermelha de terra, sangue e injustiça
de paixão, força e coragem

a estrada, essa sereia sem mar
me têm, detêm, carrega
comanda, condena

já não sou só pessoa simples de antes
sou busca, encontro, encantamento
e, ás vezes, desencanto

sou saudade, troca, alegria
e, às vezes, solidão
sou estrada.

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