esse blogue anda tão destualizado por que a vida anda corrida demais. e porque andei confusa demais por esses tempos, tanto que não consegui sequer exprimir minha confusão em palavras. tenho 28 anos, sempre pensei que chegando mais perto dos 30 as pessoas se aquietam e começam a desfrutar do que conseguiram angariar até então, seja o trabalho, seja a família, seja ambos. mas perece que não é assim. tenho as duas coisas bem estabelecidas, mas nenhuma quietude na alma.
estive os últimos 3 anos e pouco vivendo exatamente como sempre quis, desde nem sei quanto tempo atrás. no mínimo desde que escolhi o jornalismo como meio de ganhar o pão de cada dia. não é a carreira mais promissora do mundo, mas pão com cerveja caem bem no paladar da maioria dos jornalistas que conheço. assim, é uma boa carreira. mas, tergiverso, como diriam outros colegas.
andei mais por este Mato Grosso – Pasto Grosso, como diz uma colega – nesses três anos do que no próprio Rio Grande onde passei 25 anos sonhando com a vida que me esperava no coração do Brasil. conheço uma porção de cidades no eixo da famosa BR-163, mais umas no leste do estado (do lado de lá do Xingu como costumos dizer daqui), mais Campo Grande e duas outras de Mato Grosso do Sul, mais Porto Velho em Rondônia. e duas aldeias. e se considerar as cidades em que passei apenas dois ou três dias enfiada em um hotel ou centro de eventos na lista das “conhecidas”, daí é que me convenço de que estou rodada, como se diz por aqui. daí que cansei de tanta estrada. ou pelo menos este é o sentimento mais aparente. me conheço. há camadas e mais camadas de escamas nesta alma-peixes.
o caso é que já consegui o que queria. agora quero outras coisas. quando pedi demissão da RBS para me aventurar em uma ong desconhecida trabalhando no norte de Mato Grosso, na divisa com o Pará, eu queria exatamente isso que vivo hoje. viver exclusivamente de comunicação ambiental, viajar, conhecer outros lugares, outras vivências, outros cheiros e sabores.
tinha eu meu bom emprego, uma certa estabilidade, o respeito dos meus colegas. tinha saído de casa e assumido plenamente a responsabilidade pelo correr dos meus dias. tinha meus amores fugazes. e tinha já uma atuação como jornalista ambiental que era respeitada pelos colegas mais velhos no RS. acho até que era um respeito mais pelo que poderia vir a ser do que pelo que já era de fato. mas, enfim, essa coisa toda me incomodava. é fácil ser ambientalista no sul maravilha. é fácil crescer profissionalmente num campo seguro, com as fontes conhecidas, sabendo bem como as coisas funcionam e a quem recorrer para compreender o que for preciso compreender. eu seria capaz de ter o mesmo desempenho começando tudo do zero? teria o mesmo desempenho em um lugar totalmente novo, sem conhecer as fontes, as dinâmicas, as figuras?
fui para Mato Grosso como uma tempestade não porque precisasse de um emprego, mas porque queria me desafiar plenamente. queria desafiar minha auto-confiança, descobrir meu limite, testar minha inteligência. não era coragem o que eu tinha no dia em que pedi demissão com um sorriso incontrolável no rosto. não foi com coragem que eu arrumei minhas malas, fiz minhas despedidas e parti. foi com desafio. eu me desafiava no espelho todos os dias, olhando de cima para mim mesma, como aqueles galos de rinha. será que tu és mesmo capaz?
fui. sou. e, non, rien de rien. je ne regret rien. nas mesmas condições, faria tudo novamente, exatamente do mesmo jeito. nos momentos de dúvida, tristeza ou cansaço, me enfretei no espelho com reprimenda: não! não tens o direito de sentir nada disso! estás onde pediste para estar! sempre funcionou. algumas vezes com ajuda de ombro amigo do Rodrigo, que foi uma das pessoas mais importantes para tudo dar certo naqueles primeiros meses em Alta Floresta. cidade mágica onde ainda me sinto muito bem, onde poderia morar ainda por muitos anos, talvez. mas será como Porto Alegre. uma cidade para morar no meu coração. o lugar onde vivi a paixão mais avassaladora da minha vida. responsável por esse anel de ouro na minha mão. (lembra daquela pizza com vinho ao luar, na beira do laguinho? cena de um romance perfeito.)
mas o amor me tirou de Alta Floresta e me levou para Cuiabá, o meio do caminho entre meus olhos e o sorriso que ilumina meus dias. e Cuiabá não foi bom. fora as pessoas queridas que tenho lá, poucas coisas em Cuiabá enternecem meu coração. talvez nem seja a cidade em si, mas o fato de ela ser ainda uma parada antes da desejada vida a dois sob o mesmo teto. uma parada quente, agitada e com trânsito tenebroso. e essa vida com mais de 700km entre o meu travesseiro e do meu aviador começa a se ficar insuportável.
pois bem. desde o início deste ano tenho flagrado aquela imagem que eu desafiava no espelho me olhando de cima. novamente aquela inquietude de quatro anos atrás. já descobri que sou capaz de construir boas coisas em um lugar totalmente desconhecido. que sou competente mesmo, não era só o sul maravilha o responsável pelas coisas que fiz bem feitas por lá (e não deixo de notar que não fiz bem tantas outras, mas entendi que isso faz parte do movimento da vida). fui capaz de mais do que isso. fui capaz de conciliar o trabalho que gosto com a vida pessoal em uma medida bem razoável e saudável. o que realmente é um feito notável. mas a inquietude voltou.
como voltou? por que voltou? está tudo tão bem, tão bom, e crescendo! novamente tenho respeito e reconhecimento, e agora bem mais merecidos do que antes. um salário honesto e até mesmo as tais das perspectivas de crescimento. por que, meu Deus, essa inquietude???
pois foi essa a confusão que me fustigou por meses. e então descobri que não posso deixar de aceitar o desafio. tenho a alma inquieta demais para viver essa estabilidade. preciso de mais. e mais, agora, significa responder a dois desafios distintos. um deles é acadêmico: serei capaz de transformar essa rica experiência em conhecimento? não quero guardar o que aprendi só pra mim. por isso vou mudar de cidade novamente, ano que vem, dessa vez para estudar. talvez Porto Alegre, talvez Goiânia, ainda não sei. serei capaz de estudar com dedicação e trabalhar ao mesmo tempo? trabalhar bem menos, claro, mas não posso deixar de trabalhar. acho que eu piraria só estudando. não faço isso – só estudar – desde o primeiro ano do ensino médio.
o segundo desafio é familiar. quero ser mãe. serei capaz, daqui a 30 anos, de olhar meus filhos e perceber que fui capaz de lhes dar uma boa educação, valores morais e éticos condizentes com nossa condição e responsabilidade planetárias? meu aviador eu já sei que é um bom pai, correto e justo, dedicado e amoroso. e eu? no picadinho diário de choros e mamadeiras, brinquedos e temas de casa, conseguirei transmitir aos meus filhos o melhor – e apenas o melhor – de mim?
descobrirei nos próximos anos. pois não resisti ao desafio. um de cada vez claro, porque não estou tão doida assim. ainda.

4 responses to “

  1. Gi, que texto sincero. Não te conheci tão bem aqui no Sul quanto pareço conhecer pelo teu blog. Acho que se depender das tuas palavras e da tua sede em vencer teus desafios, serás uma mãe maravilhosa.:)

  2. Os desafios são para aqueles que os encaram de frente, ou de cima! Tenho certeza que assim como venceu com competência essa mudança radical de vida, conseguirá se sair bem nos próximos desafios. Principalmente ser mãe, tu és uma mulher batalhadora, justa, honesta. Tem valores que apenas pelo exemplo conseguirá transmitir aos teus filhos :)Tô na torcida por Porto Alegre!!!

  3. Que lindo, Gi. Sei que vc adora os desafios, mas adora mais ainda vencê-los. Tenho certeza que conseguirá conciliar estudos, trabalho, o aviador e filhos. Muito boa sorte.

  4. Hahahaha, não está tão doida assim?Bom querida, digo que não consiguirás esperar e nunca estarás completamente pronta, mas o desafio é gratificante como muitas vezes te disse. Boa sorte na nova jornada!;* Beijos, Tahys Meybom.

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