quatro semanas em Porto Alegre. não tenho muito o que dizer da cidade ainda. não fui ao meu café preferido, não fui ver meu pôr-do-sol preferido, não vi uma das minhas melhores amigas ainda. não vi todos os meus amigos mais queridos ainda. não estou com a pressa das outras vezes. talvez porque eu sei que vou ter mais tempo, talvez porque me sinto um pouco estranha. talvez porque esteja um pouco contaminada pelas leituras e discussão de duas disciplinas do mestrado. uma delas fala de memória e a outra de imaginário. duas coisas bem difíceis de estudar, por sinal.

assim é que Porto Alegre ainda é a cidade que mais amo, a cidade de que mais sinto falta, a que mais me encanta. porém, não é mais minha única cidade. acho que tenho uma certa queda por cidades de dois nomes, assim como Calvino pelas cidades com nomes de mulheres. estou lendo As Cidades Invisíveis como leitura complementar de uma das disciplinas e algumas coisas começam a mostrar outros sentidos quando penso em Porto Alegre e nas minhas outras cidades.

é assim que me dou conta de que também amo e sinto falta de Alta Floresta, primeira parada da parte mais teatina da minha vida até agora. talvez não por ser Alta Floresta em si, mas pelas memórias que tenho dela. na minha Alta Floresta imaginada o ar é sempre úmido e agradável. eu caminho na rua do aeroporto no final da tarde e sempre me encanto com as garças voando para o repouso noturno, e com as capivaras na represa perto do hotel; e me alegro com o perfume de alguma árvore que não sei qual é quando passo pelo córrego que não sei o nome. e depois sempre sento no quiosque do sorvete para tomar água de coco. lá eu me divirto, danço e rio muito com colegas e outros conhecidos e amigos, na casa de alguém num final de semana qualquer, com algumas comidinhas, música boa, algum violão, cerveja, cachaça e muita batucada. lá eu sou alegre e a cidade me faz bem, especialmente quando chove. lá o céu estrelado coloca minhas dúvidas em outros lugares e eu lembro exatamente porque saí de Porto Alegre.

amo e me encanto com Chapada dos Guimarães. lá estão os banhos de cachoeira mais deliciosos que já tomei. é lá que a água gelada descarrega minhas energias cansadas da batalha diária. Chapada é o lugar de lembrar do gostoso do inverno, de dormir coberta, usar chinelo e meias, calças de algodão e mantas. sempre vou ter a memória de Chapada como o lugar onde tomo chimarrão no Mirante no final da tarde assistindo o sol encher os paredões de ouro, pintar o céu de tantos tons de laranja e vermelho misturados com o azul da noite que vem, até o ventinho frio e os mosquitos nos mandarem de volta pra casa. é lá eu tomo caldo de feijão, como espetinho de queijo, dou uma volta na praça e compro verduras orgânicas (ou quase, talvez, nunca tenho absoluta certeza) na Horta Comunitária.

lá fazemos almoços bacanas quase quatro da tarde, antes de descansar na rede até a noite nos levar para a fogueira, com vinho, cachaça, violão e bons amigos. é lá que durmo o sono dos justos sabendo que na manhã seguinte vamos nos propor a descobrir uma nova cachoeira. é Chapada que guarda a memória do encontro inesquecível com Augusto, o encontro decisivo em que meu coração se perdeu irreparavelmente naqueles olhos azuis.

e descubro, ainda bem que não tarde demais, que também Campo Grande habita meu imaginário. a cidade que é o meio do caminho entre Porto Alegre e Alta Floresta, não só no aspecto geográfico. Campo Grande do posto de gasolina com rock e a fauna interessante dos motoclubes da cidade. do chimarrão no Parque das Nações Indígenas curtindo o pôr-do-sol. lugar onde trabalho até as 17h, desligo o notebook e preparo café para esperar meu amor que sempre chegará com alguma coisa gostosa. cidade de bares interessantes que não me permitem sentir saudade de Porto Alegre. onde as manhãs sempre me esperam com cheiro de felicidade no travesseiro e mate cevado sobre a pia. Campo Grande tem entardeceres espetaculares como aqui.

e a despeito de eu não ter feito tantas vezes quanto parece cada uma dessas coisas, são essas a melhores memórias que tenho desses lugares. as memórias que me fazem amar e sentir falta dessas cidades. assim é que, descubro em Calvino a explicação para tudo isso, em uma das respostas de Marco Polo para seu imperador Gengis Khan: “Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.

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