ao mestre, com carinho

Esta semana recebi uma notícia triste: um grande mestre faleceu. Este texto não é uma tentativa de dizer na ausência aquilo que não disse em vida, para ele reservei minhas melhores orações. É antes um texto para os (poucos) vivos que me leem de vez em quando.

Nilton Fischer foi um dos meus mestres mais queridos e importantes. Conheci ele no segundo semestre da graduação, quando fui bolsista de iniciação científica de outra criatura especial que Deus botou no meu caminho, Jaqueline Moll, na Faculdade de Educação da Ufrgs, há quase exatos 10 anos atrás. Nilton e Jaque dividiam a sala, pesquisas, reflexões e o carinho pelos bolsistas. Jaque me ensinou muitas coisas, sempre correndo, sempre mais atarefada do que seria saudável, sempre amável, sempre forte, sempre achando um bom jeito de superar o ritmo paquidérmico da máquina pública para fazer acontecer. Jaque é a pessoa com quem aprendi que os inéditos podem ser muito viáveis. Acho que fiquei parecida com ela em algumas coisas. De Nilton guardo memórias mais suaves, mais amorosas. Oficialmente ele nunca foi meu professor ou meu orientador, mas há muito que me considero sua aluna, orientanda e discípula.

Com cara de Papai Noel – aliás, voluntário como Papai Noel todos os anos, para distribuir sorvete para crianças em um hospital da cidade todo dezembro – Nilton é a materialização do mestre que sempre tem algo sábio para dizer ou para nos fazer pensar. Sempre. Com Nilton aprendi que tanto quanto (ou mais) do que contabilizar livros publicados, capítulos, orientações, projetos de pesquisa e extensão, créditos de disciplinas e artigos em periódicos nacionais e internacionais Qualis A, um pesquisador de uma universidade pública, dedicado aos temas sociais, deveria aprender a quantificar as horas-colo dada a crianças nas periferias, os ritos, os cafezinhos e sucos, as confissões, os sorrisos.

Foi com ele que entendi o que é a escuta densa e sensível, e com ele tentei aprender como exercitar esta escuta, a ouvir as histórias das pessoas, seus sonhos, seus desejos; a dar valor às pessoas como seres completos, únicos e fantásticos, cheios de sutilezas, de complexidades. Aprendi a jamais prometer a uma pessoa pobre o que não posso cumprir, a não vender os meus sonhos para quem já tem os seus. Um mestre generoso, aberto, sorridente e acolhedor como poucas pessoas que conheci na academia. Mais preocupado com as pessoas e em contribuir com a transformação desse mundo cão em que vivemos do que com os indicadores de produtividade do seu currículo lattes – aliás, muito produtivo de todo modo.

Um mestre sempre aberto para ouvir minhas angústias de iniciante nos caminhos da pesquisa, e depois que vim para Mato Grosso, minhas angústias de jornalista que se aventurou país adentro e encontrou todo um Brasil novo e superlativo. Busco na memória o carinho com que ele me cumprimentava “minha cara Gi” e encontro tantos outros pequenos gestos doces, como o brilho do seu olhar toda vez que a gente lhe apresentava alguma guloseima dietética deliciosa, faceiro como um guri, encontro a sinceridade com que ele acolhia ideias, reflexões e sugestões de fedelhos inexperientes como eu.

Nilton foi para mim um exemplo de mestre. Um mestre que vai ficar sempre na minha memória, que jamais vai me deixar esquecer que generosidade, alegria e amor são coisas que tornam toda a vida melhor, a nossa e a de quem está perto de nós. É contagiante, faz bem para a alma e transforma o mundo em algo melhor, mais gostoso e mais bonito. Sempre pensei “eu quero ser assim quando eu crescer”. Sigo tentando. Rezo pra que logo ele esteja escutando as histórias dos anjos.

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One response to “ao mestre, com carinho

  1. "minha cara" (e ainda desconhecida )"gi", sou filha do nilton e me emocionei com teu texto, lido hoje, nesse estranho e significativo dia dos pais… enquanto as propagandas de celulares falam em super-pais, eu recebo de ti este presente, este texto sensível, ao mesmo tempo triste e positivo. obrigada MESMO.um grande abraço e um beijo,Janaina.

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