Minha vó teve um AVC

Isso vai ser longo.

Faz tempo que vejo se aproximar a hora de aprender a conviver com a perda pela morte. Cheguei em uma fase da vida em que as pessoas com mais que o dobro da minha idade começam a ficar doentes e morrer. Em um ano e meio foram dois tios distantes e um mestre muito querido. Era esperado chegar o dia em que me confrontaria com a perda de alguém realmente muito importante. Chegou. Há 15 dias minha avó materna está sobre a tênue linha que separa vida e morte.

Numa sexta-feira minha mãe me ligou 5h30. Bastaram os dois segundos para identificar o nome da chamada e entrar em pânico. Minha mãe jamais ligaria para alguém antes das 10h se não fosse uma emergência. Vó tinha acordado meia noite com uma dor muito aguda, levada para o hospital identificaram uma embolia em uma artéria da perna direita. Na hora em que a mãe me ligou, vó estava entrando para a cirurgia – evento dramático para qualquer vivente, mais ainda para uma velhinha nascida em 1916. Mas foi tudo bem, às 9h ela já estava na recuperação. Ufa, deu tudo certo. Então, no domingo à noite ela teve uma isquemia cerebral. Desde então eu tomo turnos no hospital, de acompanhante, revezando com minha mãe, minha irmã e primas.

Hospital é lugar de uma quantidade incerta de espera, muita angústia e uma coleção de pequenas alegrias. Esperamos a cada dia que ela melhore e volte para casa, para dar fim a angústia de vê-la sofrendo. Meu coração está partido em milhares de pedaços. Vê-la suada e descabelada sem poder tirar direito o cabelo grudado no pescoço que eu sei que incomoda. Vê-la cheia de tubos para todos os lados: o remédio, o soro, a sonda de alimentação, a sonda do xixi, a água. Vê-la fazer uma careta de desconforto a cada picada de agulha para coletar sangue, injetar insulina, checar o nível de glicose. Vê-la com os braços amarrados na cama porque ela se debate muito e já arrancou a sonda e o acesso do soro uma vez. Ouvi-la perguntar para mim se a Gisele não irá vê-la, cadê seu pai e sua mãe. Ouvi-la implorando para ser desamarrada e não poder atender porque sei que ela vai se machucar de novo. Mais a soma de cada gemido de dor, cada meu deus do céu e cada nossa senhora me ajuda.

É uma brava velhinha brigando para viver a cada hora. Algumas vezes perdida no passado, algumas vezes em delírios que não podemos entender, algumas vezes apenas fora do ar. Mas lutando. E assim colecionamos as pequenas alegrias. O dia em que ela dormiu bem. O dia em que me reconheceu. Quando voltou a tomar água, primeiro numa seringa, depois de canudinho. Sentou na cama. Sentou na poltrona. Comeu sopa. Comeu o pão molhado no leite. Tirou a horrorosa sonda de alimentação. Começou a tomar banho de chuveiro. Fez cocô. Pediu os óculos de volta. Lembrou de como meu marido é bonito e que eu escolhi bem.

E então ficou duas noites sem dormir, veio uma agitação terrível e saiu do ar novo. E veio a febre e uma infecção urinária – ela tem a função renal bem comprometida há mais de um ano. Sondas, amarras, compressas e delírios. Eu rezo para que a vontade de Deus seja feita sem demora, seja qual for essa vontade. Seja ela melhorar e vir pra casa, seja rumar para outro plano. Porque vê-la sofrendo despedaça meu coração um pouco mais todos os dias. Nas piores horas eu acho que ela vai nos deixar em breve. Quando ela dorme e acorda mais calma eu tenho esperanças de ver todas as pequenas alegrias da outra semana acontecerem de novo e trazê-la para casa. Sento, afago, espero.

Eu nunca perdi alguém que amasse muito. Vó Odila é muito especial para mim e minha irmã. Até meus cinco anos nós ficávamos com ela no sítio durante a semana e vínhamos para casa com a mãe e o pai somente nos finais de semana. Depois disso, passávamos com ela todas as férias de inverno e verão até meus 12 anos. Ela está em todas as lembranças da minha primeira infância. Não tenho muitas, minha memória antes da escola é curtíssima. Mas eu sei que foi ela que me ensinou a costurar botões e a cerzir; me cedia os melhores retalhos para fazer roupas para minha bonecas e dizia amorosamente que aquelas coisinhas tortas tinham ficado boas. Vó Odila é lembrança de ovo quente de manhã cedo, com uma pitadinha de sal. De torrada, queijo da colônia tostado na chama do fogão e comigo imediatamente com açúcar, de pão assado em forno de barro, cuca, rosca de polvilho e dos melhores bolinhos de chuva do mundo.

É com ela a lembrança do primeiro dia que eu cozinhei. Férias. Eu queria as roscas doces deliciosas e trabalhosas. Eu faço as roscas e tu faz o almoço. Temos um acordo. Como eu faço comida? Ela sempre foi uma mulher prática. Escorre o arroz, frita na panela um pouco com cebola, põe sal. O frango tu também frita na panela virando os lados, depois tempera e põe água. Feito. Arroz grudento e frango sem sal. Mas tínhamos rosquinhas pro café da tarde. Não lembro quantos anos eu tinha, talvez uns 10.

Boas netas, acompanhamos a Vó nas reuniões da Legião de Maria, procissões, festas da igreja, passeios religiosos a Gramado e Canela num ônibus cheio de velinhas roídas de inveja porque suas netas não topariam uma excursão por todas as igrejas da serra. Aprendi a rezar Salve Rainha para ela poder decorar. Vó Odila não sabe ler. Ela reza todas a noites antes de dormir pelo menos um Pai Nosso, uma Ave Maria e um Glória e queria rezar também o Salve Rainha.

Eu tento pensar em palavras para descrever a dor que sinto agora, mas elas não existem.

Eu praticamente parei minha vida nessas duas semanas. Adiei meus planos de banca de qualificação cedo – eu estava bem adiantada no processo da dissertação – e adiei meu retorno para casa, em Campo Grande. Tudo que posso fazer agora é ficar aqui e dar todo o amor e cuidado que eu posso para essa velhinha que me deu tanto mais que isso.

O Hospital

Um hospital público é lugar para se ter contato com desgraças e sofrimentos de toda sorte. Quando seus sentidos se acostumam aos sons, sensações e expressões do seu doente você finalmente relaxa um pouco e senta. Então olha em volta e percebe todos os outros doentes.

Minha vó está internada no Cristo Redentor. No quarto dela há uma moça da minha idade que teve uma infecção violentíssima que lhe inchou o rosto e o pescoço. Está internada há 15 dias também. Tem quatro filhos e é muito pobre, magrinha e com dentes arruinados. Por lá já passaram uma senhora de 72 anos que foi atropelada pelo vizinho drogado e quebrou quatro costelas; uma jovem evangélica de 23 anos que teve uma discussão com o irmão de 16 e apanhou com uma ripa de madeira, quebrou alguns ossos da face; uma menina de 18 que levou um tiro em um assalto que lhe atravessou as duas pernas.

No quarto em frente há dois jovens vítimas de acidentes de trânsito. Um quebrou a perna de uma forma que não quero nem saber qual, está com o joelho preso em ferros, suspenso, imóvel, e a boca muito machucada; outro caiu e moto e teve o pé esfacelado por um caminhão. E mais um sortimento de quebrados, baleados e costurados de todos os jeitos que desfila pelos corredores, jovens e velhos – e muitos homens, prova cabal de que eles se matam mais no trânsito e em brigas.

E então você conhece os acompanhantes. A esposa do moço do joelho suspenso é uma jovem muito bonita e simpática. Eles têm três filhos e ela tirou uma licença de uma semana para ficar ao lado dele. Ele seguiu no hospital, agora sem os cuidados diários da esposa amorosa que precisa alimentar a família. A mãe da moça da infecção no rosto não tem dinheiro para a passagem e só vem ver a filha quando consegue carona – se sente humilhada e acho que tem pouco para comer em casa também. A mãe da moça do assalto parou a vida desde outubro para cuidar da filha – ela voltou ao hospital esta semana por problemas no enxerto que teve que fazer numa das pernas onde agora tem um buraco de um palmo aberto.

Dos quatro leitos do quarto da minha vó, o dela é a mais novo, o único com a tinta inteira. Os outros estão carcomidos pelo tempo, num deles a manivela de baixar o parte dos pés está quebrada. O marco da porta está comido de cupins. A caixa de descarga do banheiro está com problemas e a torneira da pia vaza água 24 horas por dia. Há dois ventiladores de teto que não dão conta do calor insano que está fazendo nesses dias e contribui para minha vó não dormir bem. E nem todas as campainhas para chamar as enfermeiras funcionam. Para os acompanhantes? Uma única poltrona.

Um dos quartos do andar imundou com uma chuvarada nesta semana, tiveram que remover os pacientes correndo. As cadeiras de banho são disputadas, não há uma em cada quarto. Nem todos os quartos têm banheiro; o nosso, privilegiado, sofre a peregrinação dos acompanhantes de outros quartos. As máquinas que servem para controlar a velocidade de gotejamento do soro e da sonda entérica vivem dando problema, param de funcionar, são trocadas e retrocadas.

Os técnicos, enfermeiras, auxiliares são em geral atenciosos. Mas não são suficientes para virem rápido quando a gente aciona a campainha atônitos por um vômito inesperado, uma febre que subiu de repente, um soro que acabou, uma máquina que começou a apitar. Nem mesmo para evitar que um paciente muito viciado fume cigarros perto do elevador com o soro pendurado na janela.

A maioria cumpre com sua rotina tão bem quanto a combinação de seus salários e seu dever ético lhes impõem. Alguns são incansáveis cuidadores, preocupados com detalhes como trazer uma luva cheia de água para colocar sobre o calcanhar da vózinha para não machucar, deixar na gaveta uma pomada para assaduras da fralda, arrumar um travesseiro a mais para apoiar as pernas e outras medidas de conforto nas quais a gente não consegue mais pensar.

O resto é espera.

4 responses to “Minha vó teve um AVC

  1. Olá amigo tudo bem?
    Queria saber se após ocorrido sua avó ficou bem?
    Pois estou com medo pq a minha teve avc hj =/ .
    Abraços .

  2. Pingback: Os números de 2010 | venusemcrise

  3. força Gi. o amor vai além da vida e do que os olhos podem ver.Abs Monica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s