quando você acha que já viveu tudo que um lugar tinha pra te oferecer, a estrada acha um jeito de te mostrar mais em uma nova curva. minha viagem de volta do assentamento foi assim. a viagem mais interessante e barata que eu já fiz em Mato Grosso.

pra quem não sabe por onde eu ando, fiz um mapinha tosco no google maps, com o ponto de partida mais ou menos correto, não tenho os pontos do gps, então é no olhômetro…

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bueno. pra sair do Entre Rios tem uma van quase todos os dias. ela sai do assentamento às 7h, a R$ 25,00, e deixa os passageiros uma hora e meia depois em Feliz Natal, que é o município vizinho, mas cuja sede fica mais perto do assentamento do que seu próprio município, Nova Ubiratã. São 90km até Feliz Natal contra 170km até o centro de Nova Ubiratã. lá chegando, espera-se até as 14h para pegar um ônibus até Sinop, por mais umas 25 pratas para rodar umas 3 horas, e de Sinop até Cuiabá gasta-se mais R$ 90 para chegar sete horas depois em Cuiabá. mas quase ninguém faz isso. e eu só descobri ontem de manhã.

como eu disse, a van sai do assentamento quase todos os dias 7h para Feliz Natal. ontem não foi um desses dias. 7h fomos para a ponte onde a van passa na saída do Entre Rios e ela não passou. paramos uma caminhonete de um conhecido dos meus anfitriões e ele nos informou que não tinha van. pedimos carona. estava lotado, já tinha três passageiros. mas uma das passageiras era a diretora da escola que já me deu entrevista na outra visita. ‘a gente espreme’. mala na carroceria, Gisele na cabine.

chegando em Feliz Natal, a diretora me diz que ia tentar ver se tinha uma outra carona no mercado. não tinha. solução? pedir carona na estrada, lógico! lá fomos nós para o ponto de ônibus na saída da cidade. passou um, dois, três, vários. nada. até que quase uma hora depois passou uma conhecida dela. malas na carroceria, nós duas na cabine, alegres até Vera.

e de Vera? carona de novo, claro. ela me disse que sempre faz assim, porque se esperar o ônibus das 14h até Sinop, perde-se muito tempo. Sinop é mais ao norte de onde estávamos e queríamos ir na direção Sul. ela também ia em direção a Cuiabá, em um congresso de educação no campo em Barra do Bugres. novamente, passou um, dois, três, o quarto parou. um caminhão bi-trem de soja.

– vão pra onde?
– Sorriso.
– bora.

malas e nós na cabine dessa vez, sacolejando estrada afora. e agora começa a aventura de verdade. nosso caroneiro é um jovem caminhoneiro, cuja família mora em Feliz Natal. tem quase a minha idade. dirige desde que os pés alcançam nos pedais e até pouco tempo trabalhava com o pai transportando madeira laminada para o Rio de Janeiro. estava vindo de uma fazenda há uns 100km de onde parou para nos dar carona. calculo alguma coisa como 40 toneladas de grãos, já que o peso total do caminhão é 50t.

fomos conversando os três, e eu observando o moço e o caminhão. chegamos em Sorriso meio dia. era onde nossa carona deveria terminar, mas ele iria até adiante de Cuiabá e ofereceu carona para mais adiante. a diretora não podia seguir, pois de Sorriso pegaria um ônibus do evento direto até o evento em Barra do Bugres. até ali, eu já tinha economizado R$ 50. resolvi apostar na sorte e no meu feeling pra sacar as pessoas.

o moço precisava registrar a nota no controle da Secretaria da Fazenda em Sorriso, o que ele achou que levaria meia hora. levou cinco. esperei lendo, conversando, contando histórias. acho que o jovem motorista ficou com medo de mim. a cada história das minhas aventuras como jornalista em Mato Grosso ele só fazia repetir ‘mas tu é peituda, hein?!’. e ele não estava falando dos meus pequenísssimos e bem escondidos seios. estava me achando corajosa. ou doida. ou as duas coisas.

cinco da tarde a nota estava liberada. mas era tarde demais pra seguir até Cuiabá. o caminhão tem velocidade controlada, e ainda que não tivesse, o peso faz com que qualquer coisa acima de 60km/h seja perigosa. ainda mais na BR-163, com vários trechos ruins e zero acostamento. pra não dar sono no motorista dei asas ao meu lado mais repórter: enchi o moço de perguntas. uma perguntação sem fim, todas as minhas curiosidades.

um caminhão era um mundo desconhecido para mim, eu nunca tinha subido em uma cabine. a estrada vista a dois metros do chão é fantástica, impressionante. o painel tem uma dúzia a mais de botões e alavancas que um carro ou uma caminhonete. computador de bordo e comunicação via satélite com a empresa. não é qualquer sujeito que dirige um bicho daqueles. descobri que tem uma pequena alavanca na marcha para dar mais potência quando necessário; que alguém na sede da empresa fica olhando o monitoramento vez por outra pra ver onde os caminhões andam; que nos tanques de combustível cabem 400 litros de diesel; que se errar a marcha em uma longa subida o motorista está ferrado porque vai ter que descer de ré e começar tudo de novo; e mais um rosário de informações variadas sobre a vida do moço. espero que ele não tenha se arrependido de dar carona…

bueno, assim seguimos no entardecer, que estava lindo. no fim, ambos já estávamos cansados de sacolejar estrada afora. a cabine trepida bastante, reflexo da trepidação das duas carretas. no início parece uma massagem, o banco da cabine é bem confortável e há espaço suficiente pra esticar bem as pernas. mas poucas horas depois é como se todos os músculos tivessem que fazer muito esforço pra não se soltarem dos ossos. e ainda tinha mais um eito de estrada até o ponto onde eu poderia pegar um ônibus para Cuiabá.

meu alvo era o Posto Gil, em Diamantino, uns 200km de Cuiabá. R$ 30 de passagem, depois mais R$ 10 de táxi da rodoviária e eu finalmente estaria na casa dos meus amigos. chegando lá, más notícias no guichê: o ônibus para Cuiabá tinha partido havia cinco minutos e o próximo só dali duas horas e meia. fazer o que? fomos tomar um café. o moço, cavalheiro, estava preocupadíssimo em me deixar sozinha no Posto Gil sozinha naquela hora. já fiz isso tantas outras vezes que para mim não era problema nenhum. ele já estava esgotado, planejava parar dali 20km para dormir em um posto melhor, e me lembrou umas cinco vezes que ia passar por Cuiabá e poderia me levar até lá no dia seguinte. sei. eu confio na sorte, mas também não sorte pro azar, ne…

pegando o ônibus meia noite e meia eu chegaria em Cuiabá lá pelas 5h. seria difícil manter o olho aberto até o ônibus chegar, mas café e conversa fiada com desconhecidos estão aí para isso mesmo. mas, quem disse que a sorte tinha me abandonado? enquanto tomávamos o cafezinho um homem nos abordou perguntando se íamos para Cuiabá. taxista, tinha acabado de deixar um cliente de Sorriso ali e tinha que seguir para Cuiabá batendo banco. faria a corrida pelo preço do ônibus. olhei bem o taxista. bem vestido, o carro era novo e tinha o adesivo dos táxis de Várzea Grande. parecia confiável. resolvi seguir apostando na sorte. negociamos e pelos mesmos R$ 30 ele me deixaria na porta de casa. cheguei em casa 1h da manhã. quebrada, mas com uma ótima história para contar!

2 responses to “

  1. Pingback: coragem? | venusemcrise

  2. Bom saber que ainda dá para confiar nas pessoas!! Baita história. E sim, andar na boleia de um caminhão é muito legal! Me lembrei da minha infânci. Meu pai foi caminhoneiro…

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