Desconfia dos que não fumam

Arte de Fumar
Desconfia dos que não fumam:
esses não têm vida interior, não tem sentimentos.
O cigarro é uma maneira sutil, e disfarçada de suspirar
Mário Quintana

comecei a fumar há uns 10 anos, com um namorado que tive. enquanto ele dirigia eu acendia o cigarro pra ele não largar o volante. ou dava um pega de vez em quando num ponto de ônibus, essas coisas. eram dois ou três cigarros no final de semana, às vezes com uma cerveja. raro isso, ele não gostava de beber, só gostava de martini, e martini definitivamente não combina com cigarros.

terminei o namoro e comecei a fumar mais, porque então eu comprava o cigarro. ainda assim, uma carteira durava uns 10, 15 dias. ficava na gaveta de onde eu trabalhava, jamais na bolsa. demorou para minha família saber que eu fumava, mesmo eu já tendo mais de 20 anos na época e sendo filha de fumantes. minha mãe havia parado há anos, eu nem lembro de vê-la fumando. meu pai fuma até hoje. muito. mas me olhou atônito no dia em que abri uma lata de cerveja na casa dele e acendi um cigarro.

assim foi durante cinco anos. uma carteira para mais de uma semana. fumava mais quando saía. a bebida é uma ótima companheira, resfria instantaneamente o que o cigarro acabou de quase queimar. funciona maravilhosamente. é uma pena que deixa a língua inchada no dia seguinte.

uma vez fui a uma plantação de fumo e todo aquele agrotóxico me deixou mal. os testes com fumo orgânico não me animaram, as próprias folhas são usadas com inseticida. eu disse inseticida e não repelente. a coisa é ruim em si mesma. e eu já tinha lido sobre o alto índice de suicídio com veneno entre os plantadores de fumo. mas mesmo assim não pensei em parar. a ideia de fumar pouco é praticamente um álibi. tão pouco não há de fazer tanto mal.

quando mais me tornava ecologista, mais buscava justificativas para o injustificável. ninguém é perfeito. é minha porta de escape. ninguém que fuma pode ser chamado de ecoxiita, pode?

algumas vezes parava por um tempo. uma, duas semanas, mais para ter certeza de que não estava dependente. comprava aqueles cigarros com sabor de menta ou de cravo, mais caros. o preço alto justificava fumar com parcimônia. e sempre foi bom ouvir “ah, mas tu nem fuma muito, não dá pra considerar fumante”.

quando mudei pra Alta Floresta comecei a fumar mais. muito mais. uma carteira durava quatro, cinco dias. depois dois ou três, por fim já fumava uns 5 ou 6 cigarros direto à noite, sozinha em casa lendo e tomando chimarrão. a solidão dos primeiros meses acabou com meu cigarro eventual. tornou-o rotina.

era um cigarro sempre depois do almoço, acompanhado ou não do cafezinho. o digestivo. no meio da tarde mais um, um intervalo para esticar os braços e descansar os olhos. então o primeiro cigarro passou a ser no meio da manhã, afinal de manhã também era preciso um intervalo. por fim, acordava, tomava banho, me vestia, tomava café da manhã, escovava os dentes, acendia o primeiro cigarro no portão de casa. estava quebrado o limite entre o fumante eventual e o viciado. o fumante eventual não fuma de manhã jamais, só depois do almoço.

um dia eu estava no aeroporto de Guarulhos, indo para Guayaquil participar do Congresso Iberoamericano de Periodismo Cientifico. meu vôo para lá era algo como umas 4h da madruga e eu precisava me manter acordada. jantei, fiz manicure, olhei todas as vitrines, por fim comprei um romance espírita e um maço. li meio maço de cigarro em duas horas. e então veio a epifania. como eu poderia estar lendo algo para edificar minha alma e envenenando meu corpo ao mesmo tempo. eu sabia que isso era uma forma de suicídio inconsciente. ops, eu sabia, então não era mais inconsciente. joguei o meio maço restante fora. durante a viagem ainda caí em tentação na última noite, em uma mesa cheia de periodistas todos boêmios e metade deles fumante. foi o último.

minha sorte foi que Édina, que morava comigo, também havia parado de fumar um pouco antes de mim. quando voltei, uma segurava a outra – havia um terceiro fumante em casa, Paulo. passei uns dois meses sem beber, para ganhar força, avisei os amigos que não me deixassem cair em tentação e passei pela prova de fogo de tomar um trago sem tragar. um ano. tão orgulhosa de mim mesma.

e então Édina teve sua segunda ameaça de aborto, agora quase no fim da gravidez. um momento dificílimo para todos nós. embora eu morasse com um casal, eu era o homem da casa naqueles tempos. o esteio, a força, a cabeça mais sã. naquela noite, depois de problemas contornados, ânimos acalmados, casa silenciosa, eu fui até o esconderijo com a reserva técnica de Malboro do cumpadre. que alívio. fumar é ter um bom motivo para suspirar longamente. isso foi algo como final de agosto, início de setembro de 2006.

desde então é uma constante de recaídas. um por dia, só. ah, mas para beber com os amigos está tudo liberado. viagens estressantes? uma carteira antes de pegar o ônibus. a vida ficou louca demais por algumas semanas? é um bom motivo, depois tudo volta ao normal. e assim é que passo meses sem fumar, meses fumando de vez em quando, semanas fumando intensamente, mais alguns meses sem fumar. às vezes me rendo, às vezes luto. a culpa me espera em cada bagana.

nenhum não-fumante entende o prazer de fumar um cigarro. embora eu deteste o cheiro nas mãos e o after taste, dar uma boa tragada num cigarro é de um prazer indescritível. um instante em que o mundo pára de girar e só existe o prazer da tragada, o blend do tabaco, o ar quente entrando. uma leveza boa que sobe à cabeça, especialmente quando se está há dias sem fumar. gosto de ver a fumaça espiralando no cigarro entre os dedos. gosto da sensação de esvaziar os pulmões. gosto de bater as cinzas de leve na borda do cinzeiro.

enquanto escrevo isso, salivo. nos perídos de abstinência, sinto o gosto do cigarro na boca quando fico ansiosa demais. a ansiedade é a detonadora de toda a minha força de vontade. algumas vezes sonho com o prazer de uma baforada.

recuso os adesivos de nicotina porque meu problema não é exatamente a dependência química. (ou é?). se fosse essa minha principal dependência, como eu poderia diminuir ou ficar semanas sem fumar sem sofrer fisicamente? meu problema está na mente, que insiste em procurar desculpas furadas para negar ou justificar o vício.

tento pelo método Analista de Bagé, com a desvantagem e não poder aplicar um joelhaço em mim mesma. estou convencida de que fumo de abobada. eu sei que existe tratamento, mas procurá-lo seria aceitar total e plenamente que eu sou viciada em cigarros, não é mesmo? e todo mundo sabe que eu páro quando quiser. e volto também. esse é o problema do vício. ao final, não importa quantos cigarros por dia, por mês ou por ano se fuma. fumou, tá fumado, é fumante. só existem duas categorias: fumante e não fumante. meio fumante e ex-fumante não existem.

fumei pela última vez em março, 100 dias atrás. é uma nova tentativa de parar. conter o vício. um começo insignificante, como todos os outros. como ouvi esses dias na propaganda de um documentário, “para de fumar é fácil, eu mesmo já parei umas 100 vezes“. vamos ver se dessa vez consigo ser forte o suficiente para o resto da vida. e se eu fraquejar, você que é meu amigo de verdade, por favor, me dê um joealhaço antes da primeira tragada.

4 responses to “Desconfia dos que não fumam

  1. Seu texto descreve exatamente a minha relação com o cigarro.
    Fumo eventualmente há alguns anos…
    Ao contrário de você eu não penso em parar… mas, eu diminuir ainda mais meu consumo, que já é pouco.
    Fumo em média, 1 maço por mês.

    • olá, William. cada cabeça uma sentença, já dizia minha avó. fumar é um prazer danado de bom que me incomoda pra caralho. ainda mais quando lembro que seu que as folhas de fumo são usadas como inseticida natural desde tempos imemoriais… acho que sou mais encanada com os impactos ambientais do que os na minha saúde.😉

  2. Tua descrição sobre o prazer de fumar não é de alguém que fuma de abobada! E o problema do fumante casual é que basta uma crise para virar fumante em definitivo. E foi o que aconteceu contigo… Mas tô botando a maior fé, tu é forte e consegue o que quer. Qualquer coisa me avisa que te dou um joelhaço, nem que seja virtual!! hehe

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