Dissurtativa

Minha dissertação começa assim. Mas até agora são os únicos dois parágrafos de que eu realmente gosto…

Em 1932 o escritor Aldous Huxley publicou a primeira edição de sua obra mais famosa: Admirável Mundo Novo. No romance futurista, a civilização industrial havia atingido tal nível de desenvolvimento que proporcionara ao mundo uma precisa divisão entre o civilizado e o selvagem.

Dirigido como uma grande linha de montagem, o mundo civilizado havia renunciado a Deus e a todo limite moral, vivendo em uma eterna felicidade química. Fora dessa máquina em perfeito funcionamento, naqueles lugares onde não valia a pena investir dinheiro e tecnologia, restava o mundo selvagem fechado em reservas. Em um encontro decisivo com o dirigente supremo, o Selvagem, nativo de uma destas reservas que fora pinçado para o mundo civilizado, mostra-se horrorizado com a degradação moral e os vícios dos habitantes do mundo novo.

Ele defende que a crença em algum deus habilita os homens à castidade, à resiliência e à renúncia, comportamentos que o dirigente considera inúteis e até mesmo subversivos. O motivo expresso pelo dirigente revela a essência de uma racionalidade que se tornou dominante no mundo moderno: “[…] a civilização industrial só é possível quando não existe renúncia. É necessário desfrutar até os limites máximos impostos pela higiene e pela economia. De outro modo as engrenagens cessam de girar.” (HUXLEY, 1981, p.286).

É assustador que a obra visionária de Aldous Huxley represente o espírito do nosso tempo quase 80 anos depois de ter sido publicada pela primeira vez. Se o diálogo entre Mustafá Mond e o Selvagem transcorresse por estes dias, talvez o Selvagem já não estivesse agarrado apenas à ideia de Deus como instância limitadora de nossas paixões. A própria natureza está a nos exibir fronteiras e limites. A racionalidade moderna caricaturada por Huxley trouxe a humanidade a um cenário paradoxal: o fabuloso avanço científico e tecnológico convive lado a lado com a miséria e a iminência de colapso ambiental. Como chegamos até aqui?

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