que merda é essa que eu tô fazendo?

todo mundo tem seus momentos  de ‘que merda é essa que eu tô fazendo?‘. eu os tenho a um ritmo constante desde a metade da faculdade, pelo menos. não sei se são meus dois peixinhos malucos nadando em sentido contrário ou se isso é coisa de jornalista, mas eu vivo em crise com a minha profissão desde antes de ser uma profissional de verdade.

deixa eu tentar explicar isso, mas já aviso que nem eu entendo direito. eu amo minha profissão, amo meu trabalho. sinto uma alegria infantil quando a Página 22 chega aqui em casa com meu nome impresso dentro. todas as vezes eu abro a página e quase esfrego no nariz do meu pobre e paciente marido, olha, Lindo, sou eu!!

amo viajar pros lugares fantásticos por onde eu tenho andado nos últimos anos, amo conhecer pessoas, conversar com as gentes das pequenas comunidades, me surpreender com as pequenas cidades. quantas pessoas além de mim vocês conhecem que vivem de ir a lugares lindos e exóticos? (sem contar a Jana Jan, ok?)

sim, eu tenho uma vida profissional fabulosa. e uma boa dose de sorte também. como dizia mamãe, nasci com a bunda virada pra lua. bem, talvez ela dissesse isso literalmente, já que nasci de madrugada… enfim, mestrado no bolso, não deu pra conseguir aulas em uma faculdade de Campo Grande? sem problema, eu abro uma empresa cheia de clientes legais. já to quase precisando de um estagiário, saiu até melhor do que o planejado. então do que essa criatura está reclamando, pai de misericórdia?!

nem eu sei. só sei que a cada dois dias me pergunto se estou fazendo as escolhas certas. se vale a pena ler tudo que eu leio sobre meio ambiente, economia, política, e dúzias de outras coisas que só confirmam a conclusão de que estamos fudidos e não tem mais volta. we screwed it all royally, como se diz em slang gringo.

meu marido acabou de chegar de Porto Velho, onde as usinas do Madeira iam levar o tar do progresso. ele vai lá a trabalho há anos. o resultado das usinas? mais gente, mais pobreza, tudo mais caro, tudo mais difícil, tudo mais complicado. talvez progresso seja ferrar com os pobres e detonar as florestas e eu que entendi errado dentro dessa minha cabeça maluca.

enfim, o rol de perguntas existenciais é longo. vale a pena escrever pro público pro qual eu escrevo? vale a pena rezar pra convertido? vou escrever pra onde, se os não convertidos não estão nem aí pra merda que estamos fazendo com nosso estado de holoceno? escrever onde, se os jornalões que falam com as massas não tem a menor vontade de pagar o quanto meu trabalho vale nem me dar o tempo que eu preciso pra fazer o troço bem feito? adiantaria alguma coisa falar pras massas quando parece que elas estão se lixando pra tudo isso, fodam-se vocês, ambientalistas, agora que finalmente chegou a minha vez vocês não vão estragar tudo. por que diabos eu insisto nessa profissão masoquista?

fato: estou cansada, estressada, mentalmente esgotada, três anos sem férias que mereçam esse nome, e não sei se isso é só cansaço ou se aí vem uma epifania. não se espantem se daqui a pouco eu pegar um rumo do tipo 180 defasado. tenho um plano B. terrivelmente sedutor e com um índice de satisfação aparentemente bem maior. terei coragem? não sei, mas vontade de encher o botão do foda-se de super bonder no modo on não tá faltando.

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