notas sobre o casamento

esses dias estive conversando com uma amiga sobre casamento e relacionamentos a longo prazo. o tema era o mesmo de sempre, o que acontece quando a paixão acaba. sim, porque paixão acaba. ela até vem visitar de tempos em tempos, mas aquelas reações bioquímicas que deixam você com a sensação de ter tomado um troço muito doido desaparecem.

e o foda é que é justamente essa sensação de que estamos intoxicados pelo outro que nos leva a começar um relacionamento. e não conheço ninguém que depois de algumas horas de bate papo não tenha admitido que sente um pouco de falta disso.

ok, casamento é mais que sexo e hormônios alucinados. casamento é companheirismo, é querer compartilhar a vida, os sonhos, os desejos. e no meu caso, casamento é ter um ninho seguro para onde retornar depois de lutar por minha porção diária de comida. mas o limite entre a segurança e a acomodação é absurdamente tênue. e é fato que casamento não tem muito a ver com aquele tal do amor romântico. casamento hoje em dia felizmente é feito na base do amor e da escolha, mas nunca deixou de ser um contrato social como bem se deu conta a Elizabeth Gilbert quando a imigração proibiu seu amor de ir namorá-la em casa.

casamento é feito na base da razão. você pesa racionalmente as coisas. pesa suas decisões à luz das muitas variáveis que têm a sua frente. essa proposta de emprego em outra cidade é ótima, mas meu marido vai conseguir trabalho lá também? ou então como vão ficar as coisas se a gente resolver ter filhos agora? ou ainda, embora as pessoas não gostem de admitir, esse novo colega me dando mole é gostoso demais, mas se meu marido descobrir vai acabar tudo e não quero acabar tudo só por uma transa com um cara gostoso. não tem nada de romântico nisso, é puro gerenciamento de risco. o que, creio eu, seja o que torna uma relação saudável.

mas até onde aceitar que a falta de frio na espinha faz parte do contrato é saudável para a relação? como saber se você está na relação porque ainda ama a pessoa ou porque racionalmente sacou que é melhor ficar juntos? separar dá um puta trabalho, gasta uma energia danada. alguém sempre vai sair mais ferido e ninguém quer ver uma pessoa com quem partilhou 10 ou 20 anos da vida sendo despedaçada. e depois tem o apartamento, o carro, as crianças, o seguro, o financiamento, a televisão nova, a reforma que recém terminamos de pagar, como vamos dividir os livros, as passagens que compramos pra passar o carnaval na Bahia…

é difícil saber em que ponto o amor se transmuta em hábito. mas pensando nisso hoje eu acho que saquei um ótimo indicador. o casamento está assentado no amor – e não no hábito – quando racionalmente você consegue imaginar sua vida sem a outra pessoa mas só de pensar nisso seu coração acelera de tristeza antecipada e grita angustiado pra você: nããããããooooo! uma vida sem meu amor vai ser um troço insuportável!

embora o casamento seja admistrado racionalmente, é na emoção e no sentimento que ele se sustenta. não cheirar o cangote do meu marido antes de dormir me dá uma vontade irracional de chorar todas as noites quando ele está viajando. pode não ser paixão intoxicante, mas definitivamente não é mero hábito.

3 responses to “notas sobre o casamento

  1. Belo artigo. Parabéns. Adorei o que você escreveu. A mais pura verdade. Mas é triste quando uma pessoa termina um relacionamento longo porque ainda acha que vai ter sempre aquela paixão alucinante e com isso despedaça um coração de outra pessoa que já sabe de tudo isso que você escreveu. Beijos.

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