um ano e meio sem pílula

como meus 20 leitores fiéis (ou deveria dizer amigos e parentes?) sabem, eu parei de tomar pílula no ano passado. desde então tenho descoberto muitas coisas sobre como os hormônios afetam meu cotidiano. como já bem documentei o início da experiência aqui e aqui, vou falar só sobre o momento atual.

este ano eu achei que tinha engravidado. um atraso monstruoso de 51 dias me convenceu de que alguma camisinha tinha vazado. fiz o exame da farmácia, deu negativo. fiz um de sangue pra ter certeza, deu negativo também. diabos, se não é neném é o que então?

foi a pergunta que eu e minha gineco tentamos responder com uma longa bateria de exames. a coisa estava mais ou menos equilibrada em um ciclo médio de 35 dias e em maio descambou pra irregularidade total. eu estava preocupada não com a possibilidade de gravidez, mas de ter algo errado comigo e, pior cenário possível, ter que voltar à pípula.

pois bem. a resposta para o atraso é três anos sem férias, muita estrada, uma dissertação defendida, uma empresa recém aberta, contas pra pagar, e a lista pode ficar longa e entediante. não há absolutamente nada errado com meu corpo.

fizemos tudo: exames de prolactina, tireóide, hemograma completo, ecografias, tudo que era possível para determinar se tinha alguma coisa fora do lugar com meu aparelho reprodutor ou meus hormônios. nunca estive tão saudável, de acordo com meu sangue.

depois de todos esses exames minha gineco me disse uma frase mágica: Tantas mulheres tomam pílula pra não menstruar nunca, você tem sorte de passar mais de 30 dias sem isso naturalmente, fique contente.

é isso. eu sou uma feliz portadora de um lindo ciclo menstrual irreguar, com sangramentos em intervalos de 30 a 40 dias. e mais: sem dor de cabeça, sem cólicas, sem sangramento intenso, sem inferno astral de uma semana antes do período e com libido de sobra pra fazer um maridão feliz o mês todo.

eu não teria descoberto nada disso se não tivesse tido paciência, perseverança e disciplina. por meses eu anotei tudo que eu sentia dia a dia, em busca da conexão entre meu corpo, meu humor e meus hormônios. várias vezes pensei em voltar a tomar pílula porque tem horas que é irritante não saber quando a porcaria vai descer e porque eu sinto falta de transar sem camisinha com meu lindo.

mas resisti. a camisinha não é pra sempre, tão logo eu não precise mais dos meus óvulos férteis posso interromper a passagem perigosa. e no fim de cada ciclo, os efeitos colaterais da pílula não valem a informação sobre o dia certo do sangramento.

sim, os hormônios mexem muito com a gente, mas somente conhecendo intimanemente o corpo que a Dona Celina e o Seu Jarcedi me deram foi possível aprender a conviver com essas mudanças.

descobri que um ou dois dias antes do sangramento meu humor fica sob lentes de aumento. seja o que for que eu sinta, é potencializado. felicidade, euforia, ansiedade, angústia, tristeza. em que pese ser complicado calcular precisamente quando eu vou menstruar, consigo saber se aquele dia que acordei com os cornos virados é prenúncio do período ou resultado de outras preocupações. e fez uma baita diferença na forma de lidar com o humor só de saber isso.

quando o ciclo fica muito esticado, como mais de 40 dias, eu fico com o corpo mais sensível, seios doloridos, uma cólica leve, a pele mais oleosa. sem pílula também pude dispensar o uso intensivo do KY, minha lubrificação natural dá conta do recado na maior parte do tempo – outro efeito colateral positivo.

nós, mulheres, nos acostumamos a pôr a culpa de quase tudo na menstruação e na TPM, mesmo tomando pílula. mas de todas as que eu converso sobre isso, raras são as que realmente sabem separar hormônios de dia-a-dia.

a maioria não faz a menor ideia de como seu corpo se comporta sem pílula, crê que seus hormônios são gerrilheiros perigosos os quais aprendeu a temer como a própria Morte e acha que parar a pílula vai detonar uma guerra civil.

os homens também temem os hormônios de suas mulheres. indefesos e desarmados, oscilam entre a revolta e a resignação. alguns, que realmente amam suas mulheres de forma serena e compreensiva, se angustiam por não saber o que fazer pra ajudar.

a ambos eu tenho apenas uma dica: anotem tudo, dia a dia. com autorização ou sem. com pílula ou sem. melhor sem, mas não sou má o suficiente pra dizer a uma criatura que morre de cólicas e sangra rios todos os meses que a vida dela vai ser melhor sem pílula. talvez seja, mas não posso garantir. cada corpo é diferente.

anotar as informações básicas como o primeiro dia do sangramento, a duração, o dia de início da pílula para as que tomam e o que acontece entre uma ponta e outra vai ajudar a entender melhor o que é ciclo e o que é mania.

e pras corajosas, eu recomendo parar. mas não só parar, parar e anotar sistematicamente TUDO por pelo menos um ano. na imagem abaixo, a prova da minha boa sorte, 13 períodos para 16 meses.

5 responses to “um ano e meio sem pílula

  1. Eu tbm nao curto mt a pilula, so me trouxe problemas, msm tendo colicas, eu prefiro tomar um remedio (no meu caso so isso resolve) e nao usar nada a nao ser camisinha. A pilula so me trouxe transtornos, me deixou mais estressada e modificava o meu corpo. Agora me sinto bem melhor sem a pilula.

  2. Oi, Gisele! Adorei o texto e me identifiquei muito com o que você contou. Também parei de tomar pílula (em janeiro) e estou redescobrindo meus hormônios. Minha fase, agora, é a da bateria de exames, para entender por que a menstruação é tão irregular. Mas desconfio que a resposta, no meu caso, seja bem próxima à que você encontrou. Que bom que no dia 25 tiro férias!

  3. Fiquei 12 anos sem pílula. O Murilo é resultado disso hehhehhe. Só a tabelinha é muito complicado, pq no caso do meu pequeno, ele foi concebido após 4 dias do início da menstruação… que realmente foi muito curta.. mas isso costumava acontecer às vezes (raro, mas acontecia). Então não me preocupei! E segundo minhas tabelas, com meus ciclos de 27 dias, estava super prevenida! Mas às vezes aconteciam essas anomalias, de períodos de menstruação muito curtos, e nunca dei muita bola. Agora uso um diu hormonal. Não aguentava mais sangrar tanto, ter anemia todo o santo mês, passar dois dias inteiros à base de remédios para dor…. fora a TPM. Mas enfim, é um período tb. Se formos pensar nas mulheres de 50 anos atrás (não estou defendendo!), elas não menstruavam tanto, pois passavam muito tempo com os ventres gerando filhos e depois, amamentando (quem amamenta, em geral, não menstrua). A menstruação é desgastante (para mim, duraravam cerca de sete dias!). Juro que cansei. Agora um intervalinho entre um filho e outro (espero que venha outro!). E depois veremos! Quem sabe até lá já estarei na menopausa!

    • tabelinha é um troço complicado, imagina se eu tentasse me basear em uma! eu não condeno hormônios irrestritamente, muitas mulheres sofrem como tu. mas muitas como eu começam a tomar cedo e perdem completamente a conexão com seu próprio corpo. tu vê, eu não tenho sangramento intenso nem longo, não tenho TPM difícil, não tenho cólica, não tenho motivos pra tomar a não ser contracepção. se é só isso, por que não ficar com a camisinha?😉

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