O Tempo e o Vento

minha irmã me mostrou esses dias que vão filmar O Tempo e o Vento, de longe um dos meus livros preferidos. daí, inspirada pela notícia, resolvi ler novamente. essa história faz parte da minha história como leitora e foi a porta de entrada para eu me apaixonar pelo Érico Veríssimo.

eu entrei n’O Tempo e o Vento pela porta do lado, por assim dizer. um dia fuçando na biblioteca de casa fui atraída pelo Um Certo Capitão Rodrigo. eu costumava escolher os livros pelo título ou pela capa nessa época. isso devia ser fins de 1992, eu acho. não lembro mais, mas acho que deve ter sido lá pelas férias de verão, a época em que eu mais lia.

não precisam fazer as contas, eu falo. eu tinha 12 anos e era uma leitora bem precoce. é que já nessa época os gibis duravam uma hora, a Coleção Vagalume um dia ou dois, e tinha me aventurado por Poliana e Poliana Moça e me saído muito bem com volumes de mais de 100 páginas.

ler é a melhor meditação pra mim. sempre foi. ao abrir um livro de ficção meu cérebro se concentra única e somente na história a minha frente, em imaginar os cenários, personagens, entonação dos diálogos, cores, sons, cheiros. é uma benção para quem tem uma cabeça tão cheia, com pensamentos constantemente pulando de galho em galho.

o que eu faço para descansar a cabeça? abro um livro. e notem que não disse “bom livro”. eu não leio pra ficar mais inteligente, leio por prazer. de Júlia e Sabrina a Crespúsculo e Dark Hunter, tudo vale para me distrair do cotidiano e proporcionar algumas horas de alívio e prazer. eu sou daquelas pessoas que em uma crise de ansiedade e na falta de qualquer outra coisa, lê bulas de remédios e bíblias de hotel.

mas voltando a O Tempo e o Vento, eu devorei os quatro volumes (na edição que eu tenho, O Arquipélago é dividido em dois tomos) em vários meses, não foi tudo de uma vez só como faço hoje. eu lembro de muitas coisas associadas a esses livros. lembro de como meus colegas me olhavam como se eu fosse um alien quando eu abria um daqueles volumões nos intervalos entre uma aula e outra. lembro de numas férias de inverno ler na cama ao lado da minha vó, aquecida por seus macios acolchoados de pena, muitas vezes com uma vela acesa para deixá-la dormir. acho que eu gostava da ideia de ler essa história com o som do vento de inverno batendo as janelas e as bolinhas de cinamomo caindo no telhado. combinava com a história.

quando li a primeira vez minha mãe me contou que havia lido eles quando estava grávida de mim e que, de algum modo, era como se eu tivesse lendo pela segunda vez. aos 12 anos eu estava lendo os livros 10 anos depois do meu pai, que costuma assinar nos livros a data de quando terminou de lê-los. vêem porque eu acredito que ler é uma coisa que se aprende em casa? agora releio com a idade que meu pai tinha quando leu pela primeira vez.

depois li de novo pedaços d’O Continente aos 18 porque ia cair no vestibular. não li tudo justamente por causa do vestibular. e então eles ficaram na estante da minha mãe. trouxe-os da casa dela quando mudei para Campo Grande. a minha combinação com a família é que os livros ficam na casa da mãe, porque eu e a Nana não temos como dividi-los justamente. mas de algum modo eu sempre achei que esses livros (e alguns outros) eram mais meus que dela e trouxe-os comigo.

agora comecei a ler de novo e percebi de não me lembrava de muitos detalhes da história. estou no capítulo da Teiniaguá já. eu não lembrava bem do Pedro Missioneiro e de novo quis chorar quando ele foi morto. não lembrava que o Capitão Rodrigo tinha olhos azuis – e não é que meu Capitão Rodrigo os têm azuis também? (e, graças a Deus, não é dado a jogos, bebedeiras e chinas!).

eu me lembrava bem da força das mulheres de Veríssimo, de sua coragem e teimosia, mas não lembrava de algumas outras mais doces, obedientes e silenciosas que pontuam as páginas aqui e ali e nos deixam tão consternadas em ver o quanto elas ainda existem fora das páginas.

e foi com certo estarrecimento que lá pela página 327 encontrei nas reflexões do Dr. Winter um pouco do que eu mesma senti quando me exilei por vontade própria em Mato Grosso. como ele em Santa Fé, aqui no Centro Oeste eu tomo bebedeiras de horizontes. mesmo tão cansada de viver viajando, não deixo de sentir esse embriagamento quando a estrada abre horizontes à minha frente.

Nunca em toda a sua vida vira céus mais largos nem sentira tamanha impressão de liberdade. Na paisagem ele descobrira então o mais poderoso motivo de sua permanência em Santa Fé. É que lhe dava uma vertiginosa sensação de ser livre, de não ter peias nem limites. De certo modo naquela vida ele realizava pela primeira vez seu velho ideal de não assumir compromissos definitivos com ninguém nem com coisa alguma. Não ter amo nem mestre, e poder – ah! principalmente isso – poder de vez em quando dar-se o luxo da solidão, da mais absoluta e hermética solidão, eram positivamente coisas voluptuosas!

obrigada, Érico Veríssimo.

3 responses to “O Tempo e o Vento

  1. Adoro o Erico, com essa mesma idade eu devorava seus livros depois que os estilo coleção vaga-lume (era uma outra série de um escritor que li tudo que encontrei) duravam uma tarde. Eu pegava o livro na biblioteca meio-dia após a aula e no fim da tarde voltava para devolver e pegar outro. Li as Aventuras de Tibicuera, que conta praticamente toda a história do Brasil, Clarissa que tenho dois em casa, um deles é uma das primeiras edições, Música ao Longe, os contos, dos quais adoro Sonata – que flerta com o tempo como na sua triologia famosa (http://fernandasouza.wordpress.com/2007/02/26/tempo-2/)

    Mas acabei só lendo O Continente para o vestibular. E tenho lembranças de infância de uma época que meu pai caminhoneiro viajava e ficavámos em casa minha mãe e minha irmã e eu. Havia pessoas maus que batiam na nossa porta todas as noites e colocavam a luz do farol do carro na nossa janela. Até hj não sei o que eram, mas minha mãe chegava a ficar sem voz de tanto medo. E nessa época uma tia minha precisava fazer um trabalho para a escola sobre a série do livro que passava na tevê e como meu avô só tinha uma tv preto e branco ela ficou lá em casa para olhar os episódios e testemunhou nossa agonia. Anos depois peguei o VHS na videoteca da faculdade para assistir, mas só consegui uma parte. Vou aguardar o filme e preciso ler antes disso!

    Mas é maravilhoso reler um livro em épocas diferentes, eles sempre nos trazem novas surpresas, novas identificações… Adorei esse trecho que tu postou, também me identifico.

  2. Gelson de Oliveira Pereira

    Como sempre a Gisa escrevendo muito bem. Lembro de já ter feito proveito desta biblioteca da casa delas! As Brumas de Avalon e talvez algum outro compêndio que não lembro agora. Assim como a Gisa Coleção vagalume da biblioteca do Pallotti não ficou um sem ler. 2011 li um livro por mês. Fora as revistas que assino. Digo isso pra mostrar que tb sou dos aficcionados pela maravilhosa experiência que a leitura nos proporciona.

  3. janaina souza neuls

    Acho que realmente o gosto por ler começa em casa. eu e a Gisa temos a mesma paixão pela leitura, sentimos a mesma inebriante sensação quando estamos lendo, é um refúgio quando lemos, pensamos só nas histórias nesse momento. acho que às vezes é até meio obsessivo, quando começamos é difícil de parar. gostamos de ler livros, mas gostamos mais é do ato da leitura, assim como minha irmã, também leio o que aparece. nossa mãe também lê muito, agora que está aposentada, lê praticamente um livro por semana. com pais leitores e com muitos livros em casa, nos parece um curso natural. também releio livros depois de muitos anos, em 2011, reli Xogum e esse ano quero reler O Morro dos Ventos Uivantes.

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