a vida é curta e o amor é imprescindível

Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

chove uma daquelas chuvas de inverno do sul já há umas duas horas aqui. o dia está frio, sem cor e triste. bem triste. hoje um piloto da Marinha morreu em um acidente com um caça da Aeronáutica aqui em Campo Grande. ainda não se sabe detalhes do acidente, ele ejetou mas mesmo assim faleceu no acindente. não conheço nem o piloto nem sua família, mas um acidente como esse deixa todas as famílias de aviadores tristes.

em 2005, quando conheci meu aviador, um acidente com o helicóptero resultou no falecimento de dois colegas dele. na época nos falávamos por telefone só de vez em quando e naquele dia ele estava arrasado. ainda nem nos conhecíamos bem, mas pude perceber na sua voz o impacto do acidente.

em 2010 um Hzão caiu no pátio de um hospital daqui com meu lindo dentro. milagrosamente, ninguém se feriu, mas ele correu grande risco desligando o motor da aerovane mecanicamente, já com o helicpótero no chão, dois carros atingidos, combustível para todo lado. foi um ato de extrema bravura que evitou um desastre de grandes proporções. ele não gosta de ouvir lhe dizerem isso, para ele apenas cumpriu com seu dever, conforme é treinado para fazer há mais de 20 anos. Para que outros possam viver é o lema do esquadrão. nesse dia eu entendi exatamente o que isso significa.

há um provérbio judaico que diz que aquele que salva uma vida salva o mundo inteiro. serviu de inspiração para o filme A Lista de Schindler, de 1993. meu aviador já salvou o mundo inteiro algumas vezes durante seu tempo de serviço, a última no ano passado, mais ou menos nessa época – um piloto que fez um pouco forçado sobre as copas de umas árvores no meio do nada no pantanal e lá ficou horas, empoleirado, aguardando socorro. é uma das coisas que me consola. se alguma coisa acontecer, ele provavelmente terá um vôo sem escalas pro céu.

é difícil ser esposa de um militar com uma função como a do meu marido. cada vez que vejo um acidente eu me sinto profundamente conectada com as famílias que ficam. cada vez que vejo filmes ou reportagens sobre militares voltando de missões e guerras eu me emociono. eu tenho uma ideia muito clara do que é não saber se aquela pessoa que você tanto ama vai voltar para casa. toda vez que meu lindo está voando, eu peço a Deus que o traga em segurança para casa.

chamem de pensamento mórbido se quiserem, mas é verdade. de um certo modo, qualquer um de nós vive esse risco todos os dias. você nunca sabe o que as próximas horas lhe reservam. a diferença é que nós, famílias de pessoas cujo risco de acidente no trabalho é uma variável constante, temos mais consciência disso.

mas não me entendam mal, eu não vivo assustada com a possibilidade de perder meu marido repentinamente. se acontecer vai ser horrivelmente triste, mas a vida vai seguir como segue para todas as famílias que ficam. eu convivo com isso. tento tornar nossas vidas leves. não brigo por bobagens. não encho o saco com coisinhas insignificantes. não faço birra. não faço cena. não encho nosso cotidiano tão precioso com irritações desnecessárias. digo a ele todos os dias o quanto o amo. todos os dias, antes de dormir eu digo que o amo, esteja ele na cama comigo ou a milhas de distância. repito sem cansar o quanto ele é precioso na minha vida. tenho ele, sol na minha vida, tatuado no meu ombro esquerdo.

um dia uma amiga me disse que um casamento é feito de três tipos de dias: os maravilhosos, os terríveis e todos os outros. os maravilhosos, bem, são maravilhosos e ponto. os terríveis são difíceis, mas se são superados, no máximo ficam na memória com alguma lição importante. o problema são todos os outros. é neles que se define se vai durar ou não. é neles que se descobre se você é capaz de conviver com aquele conjunto específico de defeitos.

eu tento cuidar de todos os outros, fazer com que sejam suaves. não quero uma enorme coleção de pequenos arrependimentos a me assombrar a alma se algo acontecer. em dias tristes como hoje eu vejo de forma terrivelmente clara o sentido disso. por isso, pessoas queridas, cuidem bem de seus amores. porque a vida é curta e o amor é imprescindível.

Resgate do piloto no Pantanal ano passado.

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

5 responses to “a vida é curta e o amor é imprescindível

  1. Nossa! Eu precisa lêr isto, estava proucurando outra coisa na internet e veio esta.
    Incrivel, é nitido o sentimento que vc sente por esta pessoa e a forma pela qual o trata, vive e pensa.
    Parabens!

    Sheila.

  2. Que lindo Gi… vc tem razão em tudo o que referiu neste post. Tento fazer o mesmo com relação ao cotidiano e as pessoas que amo desde que perdi meu mano, tragica e repentinamente, sem ter podido lhe dizer o quanto o amava. Saudade amiga… torço por ti e vibro ao ver teu sucesso! Amei o novo blog e a primeira poesia lá postada. Lembro que desde cedo vc escreveu, inclusive uma vez passei a limpo muitas e belas poesias suas. Sucesso amiga! E que Deus os proteja a sempre. Bjos

    • Obrigada, Daia! Eu me lembro daquele natal triste em que o Júnior se foi e sempre faço uma oração por vocês todos quando lembro. Acompanha a Casa Amarela, vc vai acabar vendo alguma coisa antiga por lá também.😉 Abração.

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