Bebendo poesia

eu já contei um pouco dessa história lá na Uma Casa Amarela, mas lá tinha que ser resumidinho e aqui posso escrever mais, só meus 10-e-poucos leitores fiéis leem mesmo, e eles leem praticamente qualquer coisa que eu escrevo.

eu comecei a escrever poesia muito cedo. acho que eu tinha uns 9 ou 10 anos quando escrevi uns versinhos pra minha mãe. com 12 eu estava lendo O Tempo e o Vento e querendo ser escritora que nem o Erico Veríssimo. daí comecei a escrever sistematicamente. naquela época era comum termos cadernos de poemas que levávamos pra aula e compartilhávamos com as outras. eu fiz dois, um só com os meus versos – eu tenho guardado até hoje.

parece que a Gisele adolescente já tinha um coração tão louco quanto a adulta. eu vivia apaixonada por algum garoto. todos amores platônicos. eu fantasiava horrores com esses meninos, longos diálogos, gestos românticos. beijei pouquíssimos deles. e eu tinha também umas paixonites de longo prazo. eu me interessava por um e outro durante algumas semanas, rendia versos e mais versos, para logo descobrir que era um chato e voltar pro meu amor impossível preferido. os poemas dessa época são de cortar os pulsos. como a minha mãe me aguentava eu não sei, eu era muito, mas muito, muito dramática. duvidam? eu provo:

A angústia é tão pesada
É pior que a dúvida do teu amor
Que a mágoa, que a dor
E o temor de te perder.
Porque amar sem ser amada
É viver sem ter motivo
Viver sem você.

são os últimos versos de um poema escrito em novembro de 1992, provavelmente embalado por muito Roxette, como já contei aqui. e pelos livros da fase romântica que a minha irmã lia pras aulas de literatura, e eu lia a reboque. Cinco Minutos, Lucila, Senhora, A Moreninha, e por aí vai. me explica como uma fedelha de 12 anos acha que perdeu alguém e vai viver sem motivo? mas tá lá, sou eu mesma, eu que escrevi, há 20 anos atrás. eu sempre ponho a data nos poemas que faço, assim como meu pai sempre assina o nome dele e a data nos livros que lê.

a adolescência passou – graças a Deus! – mas a poesia ficou. com o tempo passei a escrever menos, mas melhor. deve ser uma soma de tudo: das leituras que se acumularam, do amadurecimento, dos amores menos platônicos. da descoberta que a gente sempre sobrevive não importa a paulada.

em 98 eu mandei cinco poemas pro concurso dos poemas no ônibus de Porto Alegre. um deles foi selecionado, para minha total e completa surpresa. fiquei sabendo no início de 99, quase junto com o listão do vestibular. então eu me convenci de que eu não fazia versos, eu era poeta. eu sou poeta. porque não era minha mãe, minha irmã ou meus amigos dizendo que era bonito, era uma gente desconhecida que escolheu o meu poema, entre centenas, pra passar um ano inteiro colado nos vidros dos ônibus. pus até no Lattes. é bobinho, eu sei, mas pra mim foi tão importante quanto passar no vestibular. na faculdade eu conheci uma turma da Medicina que fazia uns saraus deliciosos, com vinho e meia luz, e a gente lia nossos poemas preferidos. eu lia os meus e a reação costumava ser encorajadora. ainda tive outro poema selecionado em um concurso da Ufrgs, o UniLivro – era pra ser um livro, mas acabou sendo só um pôster.

mas de onde vem isso? de onde vem essa ânsia de escrever? essa angústia da palavra? é dom? não gosto de pensar que tenho alguma coisa a mais que os outros. muito provavelmente o que tenho são parafusos a menos. a palavra, quando usada regularmente, vira amiga íntima. o fato de eu manipular bem as palavras é fruto do exercício constante, a palavra é minha ferramenta diária de trabalho. mas mesmo assim, a inspiração é meio que inexplicável. por que uns conseguem criar versos e outros não é algo que me escapa.

eu escrevo para resolver meus dramas, expurgar meus fantasmas, exorcizar os sentimentos que me assombram e desinquietam. na poesia eu naufrago e me resgato. não sei se já me sentia assim com 12 ou 13 anos, mas pela quantidade de poemas que eu escrevia nessa época, é provável. no blog de poesias de um amigo está lá assim: “A poesia é leito que acalma o meu excesso!”. é isso mesmo, na poesia eu me extravaso, exagero, vou além do real, não arco com as consequências. apenas sou. e depois posso voltar ao cotidiano.

um dia ainda vou publicar tudo num livro e vou dar autógrafos na Feira do Livro, sob os jacarandás da Praça da Alfândega. Uma Casa Amarela é o primeiro passo. conforme aumenta a audiência, vou ganhando coragem. é pouco ainda, umas 30 visitas por poema, mas considerando que as pessoas cada vez mais “curtem” sem ler, não temos do que reclamar.

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