De Mato Grosso para os viveiros do céu

Detesto usar este espaço para falar de coisas tristes, mas tem horas que é inevitável. Recebi a triste notícia hoje de que um dos amigos que fiz lá no Assentamento Entre Rios, onde fiz a pesquisa pra minha dissertação, faleceu hoje. Gelson Jair Pizzi, 59 anos, mais conhecido por lá como Cassetada, era gaúcho, natural de Sarandi, companhia para muitos mates lá no assentamento.

Um dos pioneiros no assentamento, chegou lá em 1999, quando os lotes ainda nem tinham sido divididos direito. Passou por tudo que se pode passar num assentamento como aquele, longe de tudo. Os conflitos, a malária, a dengue, a febra amarela, a energia elétrica que levou 10 anos pra chegar, o telefone público que levou 11, os incêndios sucessivos, o embargo do Ibama que bloqueou pronafs, a assistência técnica que nunca chegou…

Teatino, como tantos dos assentados que conheci lá, viveu em viveu em São Borja (RS), depois Guarapuava (PR), de lá foi pra Lucas do Rio Verde (MT) ainda nos anos 1980, e então pro assentamento. Passava mais tempo na sede da Aproger do que na sua própria casa. Era viveirista e cuidava de cada mudinha com um amor tal que tudo nas mãos dele crescia bonito. Esperto, quando tinha dúvidas, pedia pros guris procurarem pra ele na internet, no escritório da associação.

Na minha dissertação, eu considerei Seu Gelson como informante-especialista, de tanto que ele era citado pelos outros assentados como fonte de consulta para informações técnicas. Era o raizeiro e o mais próximo de um técnico agrícola que o pessoal tinha para ajudar com as agroflorestas, tudo com seus saberes de experiência feitos. No trecho que caracterizo ele na disser, eu pus assim: “Seu Gelson é um daqueles sujeitos que de tanto mexer na terra e andar sobre ela, acabou seu amigo íntimo. Todo seu conhecimento foi adquirido ao longo de anos de observação e experimentação”.

Ele conhecia todo mundo lá no Entre Rios e sabia como eram os sítios de quase todos e frequentemente separava mudas e sementes de acordo com a necessidade, gosto ou problemas de cada um. Cada muda, semente, galhinho, ramo de chá que entregava vinha acompanhada de instruções detalhadas, como plantar, como cuidar da mudinha, como fazer e tomar o chá.

Sempre me tratou como uma princesa por lá, eu eu brincada com ele dizendo que ia voltar pra casa baldosa daquele jeito. E lá vinha ele com um pão quentinho recém assado no forno de barro ou com uma manga-pequi que ele tinha plantado fazia uns dois anos e recém tinha começado a dar as primeiras frutas – “mas me guarda a semente!”.

Atento, como eu disse, aos gostos de quem andava perto dele, sempre me trazia frutas. Melancia, manga, graviola, ata… o que ele tivesse de maduro no sítio ou ali na Aproger, me trazia nas manhãs de sábado em que eu passava lá durante o período da pesquisa. Sempre acompanhado de muita prosa. Gostava de contar histórias, Seu Gelson. Ir na Aproger e não encontrar ele lambendo o viveiro vai ser uma triste, como foi triste ir lá e não encontrar mais o Marçal.

Segundo me contaram, Seu Gelson foi picado por uma jararaca quando coletava sementes com um companheiro. A cobra não foi morta e levada junto ao posto de saúde, então parece que havia alguma dúvida sobre qual era. Seu Gelson não foi atendido com a rapidez necessária, demorou para que lhe dessem o soro certo – testaram três até achar – e ele acabou na UTI em Sorriso.

Foi vítima da falta de tudo que tem naquelas bandas: de recursos médicos, de estrada, de profissionais competentes, de ser considerado gente importante que merece cuidado e atenção. Faleceu nesta tarde e, lamentavelmente, eu não poderei ir no velório, que será na Agrovila do assentamento, longe demais pra eu conseguir chegar a tempo. Fica aqui minha homenagem a mais este agricultor que lutou por terra, dignidade, cidadania e vida decente – e a quem o Estado negou respeito e direitos até o fim.

Seu Gelson clicado por mim junto à sua agrofloresta em julho de 2009.

6 responses to “De Mato Grosso para os viveiros do céu

  1. Pingback: Meu tio Gelson | Blog do Dario

  2. Deve ser por isso minha vontade de ajudar os outros, principalmente os animais.
    Como diz o ditado… a fruta não cai longe do pé.
    Pena que eu não tive a oportunidade de conhecê lo.

  3. Olá Gisele.. sou Ana filha do seu Gelson, moro em Guarapuava – PR. E desde 1999 procuro por ele, mas apenas conversávamos por telefone. A tristeza toma conta de mim, pois foi através do seu blog que eu soube do falecimento dele. Há mais de um ano não tinha notícias, então digitei o nome dele no google, e a primeira pág. a abrir foi a sua. Ao mesmo tempo me contenta por você ter conhecido ele, e também poder ler essas lindas palavras que você relata sobre uma pessoa que um dia, eu queria tanto olhar nos olhos e chamá-lo de pai e pelo menos, poder dar-lhe um abraço!!!!
    Fica aqui minha tristeza, pois não consegui a tempo meu pai….. lhe apresentar seu neto, que apesar de tudo, eu o ensinei a chamá-lo de avô!!!
    Vai com Deus!!!

    Gisele,
    Quero contar-lhe minha história, entre em contato pelo meu e-mail, se puder.
    Att,
    Ana

  4. Edivani Ap. Leseux C. Paulino

    “estamos muito tristes com a morte do nosso amigo Cassetada, principalmente meu pai que era companheiro dele de muitos anos, que DEUS o tenha…”

  5. deixa grandes saudades eu mesma moro em entre rios a 5 anos sou professora e tive o privilegio de trabalhei com seu gelson no padec um projeto de educação ambiental que eu fiz juntamente com meus alunos de 5ª a 8ª série e participação do grupo do padec….
    seu gelson era muito amigo da minha familia muito amiigo de meu finado pai ………….minha mãe conheceu bem seu gelson pois ela foi a primeira professora a licionar no assentamento teve outros mas que ficou foi ela que segurou a pontas de todos os assentados.

  6. Seu Gelson foi um homem inspirado e inspirador
    Um grande coração, que amava a natureza tanto quanto amava ajudar as pessoas. Vai fazer muita falta. Aqui o vídeo das experiências da Entre Rios onde Seu Gelson aparece em seu viveiro na Aproger.

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