coragem?

tumblr_m2a8yb0nRW1rtar0bo1_500“Coragem é estar morrendo de medo e selar o cavalo mesmo assim.”

eu li isso num livro há um mês ou dois, mas não lembro mais qual. encontrei, finalmente, uma definição de coragem que me cabe. quando conto da minha vida vida nos últimos oito anos, em geral, as pessoas exclamam: corajosa, você!

eu nunca achei que fosse coragem. um pouco de ingenuidade em alguns casos, um pouco de excesso de confiança no ser humano em outros, um bom tanto de insanidade em vários. mas coragem? coragem pra mim sempre foi essa coisa que têm os heróis, os resgateiros e os bombeiros.

quando saí do conforto da redação da RBS para trabalhar em uma (então) desconhecida ong nos cafundós de Mato Grosso meus colegas me chamaram de corajosa (e louca). eu não achei que fosse coragem porque eu estava morrendo de medo de não dar certo, de não gostarem de mim. medo de estar fazendo uma escolha movida pela paixão, por esse bicho carpinteiro que me habita e que quer viver intensamente, ver o mundo, aventurar-se, sentir o cheiro e o sabor das coisas pra poder contar suas histórias depois. isso não é coragem. é?

nunca me faltou um pouco medo, um certo frio na espinha ao cair na estrada. e eu fiz coisas que, vistas de fora, foram temerárias. fui de ônibus sozinha encontrar um índio desconhecido na rodoviária de uma cidade em que não pegava celular, para visitar uma aldeia.

subi um riozão 7 horas de voadeira para chegar à pista de pouso ao lado de uma aldeia onde o avião que deveria levar a mim e outras 3 pessoas para cidade não estava mais esperando.

passei no meio de uma boiada na garupa de uma biz na BR-163.

peguei carona com outra moça na beira da estrada até uma cidade 200km daquele ponto e terminei rodando mais 400 sozinha com um caminhoneiro que nunca tinha visto antes e jamais tornei a ver.

larguei tudo isso para virar freelancer, só para poder casar. de novo uns e outros vieram me chamar de corajosa. chegar tão longe, ganhar bem, ter uma posuição de respeito, e largar tudo pra começar de novo, outra coisa, em outra cidade? corajosa!

se ter coragem é isso que está naquele livro, eu sempre tive um pouco de medo, mas selei todos esses cavalos mesmo assim. afinal, o cacique tinha me convidado para uma festa, todo mundo anda por esses rios da Amazônia de voadeira, pilotos se assustam com o tempo nessas bandas mas sempre voltam, peões sabem controlar suas boiadas, caroneiros experientes nos dão (um pouco de) segurança. e casamento, bem, o amor é uma aventura que a gente tem que viver até as últimas consequências. mesmo que contos de fadas nem sempre tenham finais felizes.

quando olho para todas essas coisas, e para tantas outras que fiz, criei, iniciei, entreguei, eu nem acredito que eu fiz tudo aquilo. eu sei que eu sou boa jornalista, boa comunicadora, boa educadora, mas na maior parte do tempo eu acho que sou apenas boa, nunca espetacular. mas quando olho pra essa última década eu nem acredito em todas as coisas que eu fiz. às vezes eu olho minhas matérias publicadas na melhor revista sobre sustentabilidade deste país e nem acredito que aquela sou eu mesma, e escrevendo sobre economia!

talvez eu seja corajosa. talvez apaixonada demais pela vida e suas possibilidades. tenho absoluta certeza de que me faltam alguns parafusos. mas eu simplesmente não consigo ser de outro jeito. até tentei sossegar o facho, criar raízes, essas coisas adultas que a gente pensa quando está chegando aos 30. não deu. minhas raízes estão no vento.

agora estou tentando selar outro desses cavalos. é meio arredio, o frio na espinha está aumentando de intensidade com a idade. não tenho mais aqueles 25 frescos anos de quando saí do Sul Maravilha. mas, conseguindo selar esse bicho, monto e me vou. mesmo com frio na espinha. mesmo cheia de medo de cair. mesmo quando contemplo a possibilidade desse bicho sair galopando campo afora de repente.

no fim, eu gosto de ter histórias pra contar. e as melhores são aquelas que a gente viveu na pele.

One response to “coragem?

  1. é isso ai Gi, te entendo completamente e vou te dizer, é o medo, o frio na espinha que não nos deixam arrefecer e ir em busca das coisas para que o preço das escolhas – tão contraditorias para a maioria das pessoas – não seja muito alto para nos e nos permitem de realmente viver muitas coisas

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