sobre o ato de cuspir para cima II

sim, uma vez não foi suficiente.

mas dessa vez me superei e o cuspe que vai cair quente e denso na minha cara vem dum acumulado de anos e anos. anos que passei dizendo que não tenho nenhuma atração por São Paulo, que acho aquela uma cidade doente, que dificilmente aceitaria uma proposta de trabalho lá.

pois sigo não tendo nenhuma atração particular pela nossa Big (pine)Apple, não tive ainda nenhum motivo para deixar de acreditar que é uma cidade extremamente doente, ambientalmente agonizante talvez. mas, no fim, não foi tão difícil assim me convencerem a aceitar uma proposta de trabalho lá. assim é que no dia 17 de março serei a mais nova retirante a se amontoar na cidade grande.

e não bastasse ter passado anos cuspindo pra cima sobre São Paulo, ainda cuspi uma porção de vezes sobre trabalhar em televisão. sempre achei glamour demais pra minha falta generalizada de delicadeza e bons modos. sempre fui muito mais Fiona que Aurora…

pois tô indo pra São Paulo trabalhar em televisão. bem, não exatamente televisão. sigo no ramo das letras impressas. ou luminosas, para ser mais precisa, já que seguirei trabalhando com internet. mas é muito perto: vou para a redação principal do Canal Rural onde seguirei empacotando o conteúdo para o site. jornalista e jornaleira a vida toda.

os motivos são muitos. e, diferente de quando fui embora para Alta Floresta e de todas as outras mudanças depois de lá, dessa vez foi difícil tomar a decisão.  explico.

em junho passado vim para Porto Alegre, a eterna cidade do meu coração, por acreditar que já tinha dado o que podia ao jornalismo e era hora de encarar de vez a carreira acadêmica. Campo Grande, aquela adorável e linda cidade, não me tratou bem, todos sabem. em três anos me rendeu uma tremenda frustração profissional que quase acaba com meu casamento – mas essa parte da história é para um outro post.

juntei meus pedaço e vim, decidida a passar na seleção para o doutorado. cursei uma disciplina como aluna especial, para adiantar o serviço. a proposta de trabalhar no online do Canal Rural era temporária, uma forma de unir o útil ao agradável, me dando um cascalho a mais até março deste ano, quando as aulas do doutorado começariam. eu tinha quase certeza de que ia passar na seleção. estava estudando duro há meses e tinha um bom projeto. o plano era realmente bom.

como eu saberia que iria gostar tanto de voltar para uma redação? que iria me sentir desafiada profissionalmente por ela de novo? o plano era bom, mas as circunstâncias mudaram. no fim, eu sempre fui boa em aceitar a impermanência de todas as coisas.

um dos motivos que me fizeram decidir ir para SP é que o doutorado pode esperar. a universidade não vai sair do lugar. vai ficar ali décadas e décadas no exato lugar em que está. já a vida de jornalista, repórter, redatora? essa não vai me dar outra chance depois que eu entrar no doutorado.

então, vejam. eu vim para Porto Alegre porque achei que minha estrada como jornalista estava chegando ao fim. 10 anos de formada e fiz de tudo um pouco. um pouco de rádio, um pouco de assessoria, um pouco de hard news, um pouco de internet, um pouco de revista… a jornada estava chegando ao fim. doutorado e o início de uma carreira docente era o caminho mais fácil deste ponto em diante.

e é o caminho mais fácil. em um mercado cada vez mais cruel, que sacrifica a qualidade em nome da tecnologia. que em nome do lucro sacrifica seus recursos mais valiosos – como um padeiro que passa a comprar cada vez menos farinha para fazer cada vez mais pão -, só está sobrando a academia, para a qual estamos entrando cada vez mais cedo. há algo nisso que sempre me preocupou: como mostrar o caminho das pedras para os aspirantes a jornalistas sem termos comido a pauta que o deadline amassou? repetidas vezes?

não me entendam mal. eu gosto da vida acadêmica. gosto da pesquisa, da reflexão, da análise, da sala de aula. é revigorante dar aula, principalmente se for sobre jornalismo, comunicação, meio ambiente. mas eu gosto ainda mais de ser jornalista. são só 10 anos de formada. é pouco, na verdade. ainda tenho muito gás para dar como jornalista. mais uns anos de mercado, fazendo uma coisa que nunca fiz, podem me tornar uma professora melhor. pelo menos terei mais histórias pra contar.

claro que estou preocupada com o que São Paulo pode fazer comigo. embora tenha crescido guria de apartamento, faz tempo que não sou mais flor do asfalto. mas, além da impermanência, eu aprendi a ter resiliência.

Selva de pedra, me aguarde.Imagem

2 responses to “sobre o ato de cuspir para cima II

  1. Ei, que notícia estimulante! Desde a faculdade, sempre achei que tu tinha o maior dom para a academia, mas concordo contigo que tu será uma professora ainda melhor se conhecer bem o mundo do qual está falando, de carne e osso, não só pelos livros. E talvez tu vá reconhecer que cuspiu para cima uma terceira vez, hehehe. Eu sempre falava mal de São Paulo, cidade que só conhecia de passagem. O primeiro ano lá foi difícil, mas cheio de surpresas positivas. Depois de quase cinco anos morando lá, te digo de coração que foi MUITO difícil deixá-la, principalmente pelas pessoas, mas também por tudo que acontece lá, pelas organizações e grupos a fim de construir algo melhor nessa selva de pedra, pelas atividades culturais e todas as infinitas possibilidades. Quem sabe o teu doutorado não será na USP? Desejo com muito carinho que tua experiência seja incrível!

    ps: uma vida boa em SP começa pelo local onde tu mora e o trajeto entre casa e trabalho. Eu AMO meu ex-bairro, a Vila Madalena, não o trocaria por outro, e chegava em 40 ou 45 minutos no trabalho, caminhando 20 minutos por ruas arborizadas e calmas e depois no trem. Mas não sei se pra ir pro Canal Rural seria a melhor opção. Bom, se eu puder ajudar de alguma forma, me avisa!

  2. Boa sorte Gi! Também sempre tive aversão por SP mas a vida da voltas, ainda mais para aqueles que não gostam de ficar parados. E a tua escolha tem logica! bjs

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