minha mãe sofreu um infarto domingo à noite. e uma parada cardiorespiratória em seguida. saiu do ar, foi sedada e entubada. e desde terça-feira minha rotina se resume a olhar emails, tentar pensar em outra coisa, e visitá-la três vezes por dia na UTI do Hospital Conceição, onde me deparo com uma plaquinha de inauguração orgulhosa, me dizendo que aquela é a maior UTI do SUS no Rio Grande do Sul. isto depois da mãe ter passado um dia e uma noite na sala vermelha, onde ficam os cinco casos mais graves dos 108 leitos da maior emergência do Estado. outra informação que obtive nos murais da sala de espera da UTI.

talvez eu não precisasse de todas essa informação que a sala de espera me oferece. talvez eu só precisasse saber que ela não está bem, mas vai ficar. e na verdade, do fundo do coração, eu só queria uma data e hora. porque essa é a parte mais cruel dessa semana: a espera. a agonia excruciante de não saber o que vai acontecer nas próximas horas, a impotência absoluta. não há nada que eu possa fazer, além de rezar e esperar. absoutamente nada. não posso dar banho nela, não posso limpar sua boca, não posso ajudar a trocá-la, não posso ficar com ela no quarto durante mais do que 30 minutos em cada turno.  não posso me aproximar sem avental e luvas cirúrgicas. absolutamente nada a não ser confiar em Deus e nos médicos e esperar.

esperar que retome a consciência, esperar que acorde, esperar que me reconheça, que a pressão estabilize, que não haja risco de nova parada, que os pulmões voltem a respirar por conta própria, que seja desentubada, que os rins voltem a funcionar, que volte pra casa conosco, finalmente.

enquanto isso, decoro os cartazes da sala de espera, a posição dos azulejos, o nome dos funcionários, os rostos dos meus companheiros e acompanheiras de agonia. e choro. pela minha dor e pela deles. porque a sala de espera é um lugar de muita dor e desepero. como o rapaz mais ou menos da minha idade que recebeu más notícias ontem e tremia dos pés à cabeça num choro tão convulsivo que não dava pra não chorar junto. ou a senhora, talvez perto da idade da minha mãe, que bate ponto na mesma sala há 30 dias, esperando que o marido se recupere de duas paradas cardiorespiratórias que teve enquanto se preparava para uma cirurgia na próstata.

a maioria dos parentes termina a visita como eu. sérios, graves, preocupados. muitas vezes aos prantos. porque por mais que eu tenha fé e esperança e saiba que minha mãe é uma baita guerreira – uma que me ensinou a ser forte e guerreira como ela – não tem como não sair de lá com o coração despedaçado. em algum lugar dentro de mim, a criança teimosa que eu fui não quer entender nada, não quer explicações, não quer comos nem por ques. eu só quero que ela fique bem e volte pra casa. ou acordar amanhã e perceber que foi tudo um sonho longo e angustiante, mas só um sonho.

mas daí a vida real me tá uns tapas bem sonoros na cara e fala bem alto, olhando nos meus olhos e articulando cada palavra pausadamente: não foi assim que tua mãe te criou. e não foi mesmo. ela me criou para ser forte, para entender que chorar faz parte e alivia a alma, mas não resolve problemas. que se eu quiser alguma coisa nessa vida eu tenho que dar duro para conseguir porque nada cai do céu. então, se esperar, vê-la por apenas uma hora e meia a cada dia, ouvir as explicações diárias da médica e rezar é tudo que eu tenho nesse momento, eu vou fazer isso da melhor forma que puder. com tudo que eu tenho de energia em mim e mais um tanto que parentes e amigos muito queridos estão me mandando diariamente. com toda a força que ela sempre me inspirou. mesmo que isso signifique uma montanha russa emocional. é o que a casa oferece no momento.

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