que semana para se viver apenas uma vez na vida. do momento em que minha irmã me ligou avisando que minha mãe tinha tido um infarto e um edema pulmonar até o dia em que vi minha mãe de olhos abertos buscando forças pra ter um fiapinho de voz e perguntar seu eu estava bem, eu senti um carrossel de emoções que não quero repetir outra vez nessa vida.

momentos como esse nos lembram da tremenda fragilidade da vida. somos heróis, somos guerreiros, somos tão jovens, somo tudo isso e mais. mas somos, essencialmente, frágeis.

minha mãe é uma jovem senhora que completa 64 anos em outubro. saudável, alimenta-se bem, exercita-se, mantém uma vida ativa, lê muito, adora palavras cruzadas e, acima de tudo, tem uma força de vida inacreditável – e ainda assim sofreu um infarto.

ela nos ensinou a sermos guerreiras, que nada nessa vida é de graça, que se a gente quer alguma coisa, precisa acordar cedo e batalhar. ela queria ter feito faculdade de jornalismo. fez um vestibular na vida só, pra PUC, eu devia ter uns 6 ou 7 anos. não passou, mas nunca se lamentou pra gente, nunca fez lavagem cerebral pra uma das filhas seguir a carreira que ela quis.

a lavagem cerebral dela era uma só: vocês duas têm que ter uma profissão, uma carreira, estabilidade, um bom emprego. e nunca dependerem de homem nenhum pra nada. a gente aprendeu a lição. e eu escolhi jornalismo por ter a ver comigo, a influência da mãe se limitou a me transmitir o gosto pela leitura e o capricho na redação.

ainda assim, claro que o dia da minha formatura foi emocionante pra mim. eu consegui o que ela não conseguiu, coloquei as mãos no diploma que ela desejou ter tido e que a vida com duas filhas pequenas pra criar não deixou. e fiz uma bonita carreira com ele, uma da qual me orgulho muito de ter e exerço com paixão.

costumo compara-la à Maria Valéria, uma das minhas personagens preferidas d’O Tempo e O Vento (que ela leu quando estava grávida de mim e eu li três vezes depois disso). a mãe tem essa força estoica da Maria Valéria, a mesma visão prática da vida, e também o mesmo imenso reservatório de amor que se traduz em cuidado. não importa se eu saí de casa e me viro sozinha há 10 anos, quando estou na casa dela, ela sempre me pergunta, antes de eu sair, se eu peguei um casaco, se estou levando uma bolachinha caso dê fome, se tenho dinheiro pro ônibus.

ela tem a preocupação constante com essa filha desgarrada e impulsiva que, nessa altura da vida, ainda não tem uma casa ou um apartamento, vive mudando, vive pulando de galho em galho.

desde que entrei pra faculdade ela dizia que um dia ia me ver na televisão. e eu sempre desdenhei, TV nunca foi minha paixão – rádio e texto são. até este ano, quando sim, fui parar na televisão. três vezes. para faceirice da Dona Celina, que deve ter contado o feito pra vizinhança inteira.

por tudo isso foi tão difícil viver as emoções da semana passada. sem saber se o coração dela se recuperaria, sem saber se os pulmões voltariam a funcionar direito, se ela acordaria, se lembraria da gente, se poderia mexer braços e pernas. sem saber absolutamente nada sobre o tipo de dano que a parada cardiorrespiratória poderia ter causado. três curtíssimos 30 minutos por dia de vê-la entubada, inchada e fora do ar durante quase cinco dias me levaram muito perto de um colapso emocional. três coisas me seguraram nessa semana.

a primeira foi o pensamento que me salvava dos momentos de desespero: não foi assim que minha mãe me criou. ela me criou pra ser forte e encarar o que quer que seja que a vida me apresente com a cabeça erguida.

a segunda foi minha sobrinha. chegar em casa e ver minha Biscoitinha serena no peito da minha irmã me desligava de tudo. bebês têm essa capacidade única de nos fazer viver unicamente o momento presente, de nos fazer acreditar no milagre de vida. de nos acalmar seja lá qual for a turbulência quando a gente pega essas coisinhas miúdas no colo.

e a terceira foi uma rede de proteção tecida com afeto por amigos e parentes que me deram apoio diariamente. mesmo amigos distantes, pessoas com quem raramente converso, mas que nessa hora tão crítica estiverem tão presentes. não importa que não tenha sido uma presença de carne e osso, ela foi uma presença constante e muito importante. não tenho palavras para agradecer a Deus por ser tão generoso nas amizades com que me presenteou nessa vida.

então, depois de uma semana de tantas dúvidas, de tanta coisa que a gente não sabia, vê-la achar forças pra, na primeira chance, me perguntar se eu estou bem, me fez sair daquele hospital saltitante.

sabemos que temos um bom caminho de recuperação a nossa frente. amanhã ela deverá sair da UTI, ainda para mais alguns dias de internação, principalmente por causa da hemodiálise. mas tenho certeza de que logo ela estará em casa, sendo bem cuidada e restaurando todas as suas forças.

e fica o lembrete: a vida é frágil. é importante não colecionar arrependimentos. é fundamental amar sem reservas.

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One response to “

  1. Berenice de Assis

    Chorei querida e parabéns pela criação que vcs tiveram .bjs

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