esses seis meses São Paulo têm sido uma experiência intensa. experiência que é, fundamentalmente, uma reconstrução e um renascimento.

de uma certa forma, é como quando mudei para Alta Floresta em 2005. São Paulo testa meus limites. eu saí de Porto Alegre para a experiência mais radical e transformadora da minha vida. saí do conforto do Sul Maravilha para descobrir do que eu realmente era capaz. precisava saber se longe do lugar que conhecia tão naturalmente, longe das fontes bem conhecidas, da imensa zona de conforto que era estar lá, eu seria uma boa jornalista ambiental. eu não era tão boa assim, descobri nos primeiros meses, mas tinha as ferramentas necessárias para me tornar.

fui, me apaixonei pela floresta e descobri que poderia me tornar boa nisso, sim. aprendo rápido e faço as conexões necessárias. nunca me achei a melhor – eu posso citar pelo menos três jornalistas muito superiores a mim -, mas tive ótimos momentos em que deitei à noite pensando “hoje eu fui foda”. é bom. todo mundo deveria ter uns dias desses de vez em quando.

em Mato Grosso eu reconstruí a minha identidade profissional, transformei algumas impressões em certezas e me despi de várias certezas tolas que havia levado comigo na bagagem. é incrível como a gente tem certezas quando tem 20 anos. em Alta Floresta eu matei a guria de apartamento cheia de militância burguesinha. trabalhando no ICV eu renasci como uma comunicadora ambiental mais moderada, mais ponderada, mais sensível aos muitos porquês desse Brasil caboclo que a maioria das pessoas sem recusa a conhecer e entender.

renasci criatura mais disposta ao diálogo e à escuta densa. mesmo com aqueles que agitavam o dedo na nossa cara nos acusando de ambientalistas. sim, na fronteira do desmatamento isso é mais uma acusação do que uma constatação, em muitas situações. acusação não raro seguida de julgamento e execução, não nos esqueçamos.

pois aqui estou, quase 10 anos depois desse passo fundante, reconstruindo a profissional que fui até então. no Canal Rural eu me reencantei com o jornalismo, com a edição e com a reportagem. recaída em um vício que nos arrasta por plantões, feriados, fechamentos e outras insanidades que somente nós, jornalistas, achamos prazerosas. como ouvi outro dia de uma de nossas estagiárias, que ouviu em uma palestra, jornalismo é pau duro sem viagra. e é mesmo. e eu tinha quase me esquecido o quanto.

reconstruo, pois, minha carreira nesta Pauliceia Desvairada e confirmo o que suspeitei quando desisti do doutorado: eu ainda tenho muito combustível para essa fogueira interna que nos faz gostar da feitura das notícias. infiltrada na trincheira do inimigo, como já ouvi algumas vezes, me reconstruo jornalista especializada em meio ambiente com o desafio de mostrar as conexões entre natureza e produção. ainda não fui longe nisso, mas chegarei lá.

da mesma forma que antes, estou me despindo de pedaços de mim que não me servem mais, que não são mais eu. aos poucos me desfaço da Gisele mais hippie, mais bicho grilo+paz e amor e renasço mais urbana, mais boêmia, mais amante das artes. nunca vou deixar de ser bicho do mato, nunca vou deixar de amar uma cachoeira gelada, mas São Paulo me devolveu um estranho encanto pelas cidades.

hoje, caminhando pela Paulista, me dei conta de já sou daqui. mesmo que não conheça a cidade direito, mesmo que não tenha tido tempo de degustar muito da cidade. e confirmo uma das minhas poucas certezas nessa vida cigana: as cidades são feitas das relações que criamos nelas.

deixei um pedaço do meu coração em Alta Floresta e outro em Cuiabá. Porto Alegre sempre será aquele grande amor da infância. mas, confesso, São Paulo já tem um pedaço de mim. e virou poesia, sinal definitivo da conexão estabelecida.

Todas as cidades são iguais
Aço,  concreto e pressa
Vandalismo, arte e lixo

Cada cidade é única
Um edifício que se reinventa
impressionantemente colorido
E nos faz olhar para cima

Todas as cidades são iguais
Trânsito,  buzina, irritação
E esses preços que só sobem

Cada cidade é única
Histórias guardadas
em tantas esquinas

Todas as cidades são iguais
Para os olhos de cada um

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