um dia de cada vez

eu vivo no presente. sempre vivi. não significa que não pense no futuro, que não tenha planos, que não me imagine daqui 10 anos. apenas faz tempo que entendi que o ontem serve para aprendermos, não há nada para buscar lá além de lições e boas lembranças. e o amanhã serve para ser pensado, projetado, desejado, planejado. mas é no hoje que vivemos. só existe o agora.

talvez isso faça de mim uma pessoa positiva e de bem com a vida, na maior parte do tempo. tenho meus acessos de melancolia – excesso de passado na mente – e minhas crises de ansiedade – excesso de futuro no pensamento. mas, na maior parte do tempo estou conectada com o agora. algumas vezes até com muita intensidade, no melhor estilo live fast, mas sem o die young, que sempre achei um desperdício.

entretanto, nunca vivi um momento tão absolutamente feito de presente na vida como agora. os últimos três meses têm sido uma ode ao lema do AA: um dia de cada vez. a radicalidade destes dias me fez superar um longo período de muita ansiedade que eu vinha vivendo.

há bem mais de um ano eu tinha muitas preocupações com o futuro. quando será que vou ser mãe? quando vou passar numa Federal? que idade vou ter quando conseguir meu título de doutora, não vai ser muito tarde? quando terei uma família completa, como desejo? em que cidade vou conseguir me estabelecer e querer fincar raízes? quando vou conseguir conhecer a Europa? quando vou ter dinheiro pra ir a Buenos Aires? será que um dia vou conhecer o Alasca?

e então minha mãe sofreu um infarto, um edema agudo de pulmão e um AVC. assim, tudo junto. Passou 30 dias na UTI, mais 10 internada. foi pra casa, passou 10 dias e voltou para a UTI, foi pra casa pouco mais de 15 dias depois, mais uma semana em casa e uma nova entrada na Emergência. outros menos de 15 dias em casa, e hospital de novo. e já se vão mais de três semanas lá. todas as perguntas desapareceram. todas.

é, também, um pouco como viver dentro de um episódio de House. cada dia nos traz um novo problema, uma nova suspeita, um novo exame, um novo diagnóstico. finalmente temos um prognóstico: minha mãe precisa de uma cirurgia. estenose da traqueia. pode tanto ter nascido com isso quanto ser resultado de entubação. no caso da mãe, resultado das três entubações que ela já teve.

torcemos para que seja marcada para esta semana. quanto mais rápido ela fizer, mais rápido se recupera e vai pra casa sem riscos de ter uma nova falta de ar. até lá, permanece internada. nem os médicos muito menos nós queremos correr o risco de ela não ser socorrida a tempo em casa num episódio destes. até agora, das três vezes que aconteceu, Deus abençoou e a Samu chegou rápido.

e assim vamos, eu, minha irmã e o marido da minha mãe, tentando nos consolar, tentando manter a firmeza, tentando manter os pedacinhos quebrados dos nossos corações colados, de alguma forma. porque é de despedaçar o coração ver uma das pessoas que eu mais amo no mundo assim tão frágil, tão impotente, tão sob risco.

dói. nada na minha vida doeu tanto. eu rezo e peço a Deus que minha mãe vá pra casa curada, pra que a gente possa encher ela de amor, carinho, cuidado e comida. pra que ela recupere as forças, engrosse um pouquinho as pernas, ganhe algum músculo de volta. minha mãe era uma senhora saudável, que fazia ginástica em casa todos os dias, caminhava pelo bairro e se alimentava de forma exemplar. um ponto fora da curva das estatísticas de pacientes suscetíveis a infartos e AVCs.

eu só quero ver ela assim de novo, comendo seu sortimento diário de arroz, feijão, carne, saladas, frutas e aquele café com leite com bolachinha antes de dormir. eu só quero preparar uma ceia de natal bem gostosa pra minha família neste ano. é o máximo de plano de futuro que tenho nesse momento. o resto não é importante.

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