eu não sei se minha mãe vai acordar de novo. neste momento a única parte do corpo dela que se move é o tórax, quando agitado pela tosse.

eu não sei se ela me vê ou me ouve. então eu apenas fico lá, durante os 60 minutos da visita, segurando a mão dela e fazendo um cafuné. de vez em quando digo pra ela ficar tranquila e confiar em Deus que tudo vai dar certo.

e tento não chorar junto dela porque eu sei que se ela estiver consciente e perceber que eu estou chorando, isso vai doer nela. a minha dor sempre doeu muito nela.

eu preciso ser forte pra ela agora, mas é realmente muito difícil e eu fraquejo cada dia com mais frequência. tem momentos em que me sinto quebrada além de qualquer possibilidade de reparo.

um amigo me disse essa semana que eu devo tentar não me sentir assim. que eu tenho que lembrar que, se minha mãe pudesse, tiraria a minha dor com a mão.

então percebo que o que preciso não é ser forte, mas resiliente. preciso conseguir seguir adiante, inteira, apesar de tudo. a vida segue, inexorável. ela sempre nos ensinou isso, com palavras e, principalmente, com atitudes.

ela sempre foi em frente. quando meu avô morreu de câncer, ela foi em frente e cuidou da vó, mesmo tendo perdido um guia e amigo. ela era a caçula e conta que sempre foi a única que conseguiu suavizar a dureza daquele alemão.

quando ela não passou no vestibular para jornalismo na PUC, ela seguiu em frente e nunca lamentou nem reclamou. pelo menos não pra gente. não deu, a vida segue.

quando ela e meu pai se separaram, ela seguiu em frente e fez o melhor para criar suas duas filhas. e não foi fácil, porque eu era uma pestinha que mentia que ia estudar na casa de uma colega e ia namorar. tenho absoluta consciência de que eu sou o produto do esforço incansável da minha mãe de fazer de mim uma criatura decente.

quando os sucessivos planos econômicos da Nova República quebraram os assalariados como ela, ela manteve a firmeza e seguiu. íamos no serviço de assistência da BM comprar a cesta básica subsidiada todo mês e ficávamos felizes com o patê de presunto em lata e o pacote de bolachas sortidas.

eu só vi ela fraquejar quando eu fui embora. um soluço no aeroporto, quando eu já entrava na sala de embarque. mas ela me desejou boa sorte, disse pra eu me alimentar direito e ligar quando chegasse. e depois ficou feliz quando viu que eu tinha escolhido um bom caminho.

a vida segue, inexorável. e minha mãe me ensinou que a gente tem que fazer o melhor que pode, com os recursos que têm.

4 responses to “

  1. Gi querida, queria ser muito sábia para te falar qualquer coisa que pudesse te orientar corretamente, mas é impossível, por isso te falo com o coração e com o amor que me é possível, como amiga e mãe: entrega-te ao teu instinto e seja verdadeira…. sem ser egoísta! Persevera e não desista nunca, mesmo que a estrada e o destino não sejam os da tua escolha! Ama sempre e isso te fará feliz… pois estarás sendo verdadeira e o teu amor extrapolará todos teus limites até atingir tua mãe, seja qual for a circunstância! Ela te ama e sentira isso. Beijo e fica bem! estou aqui!

  2. Talvez seja melhor deixar tua mãe, se está mais ou menos consciente, saber de tua dor, sofrer junto etc. Faz parte. Pode, inclusive, ser uma forma de deixar que ela seja, mesmo nessas condições, tua mãe, mais um pouco. Não se trata de se desmanchar na frente dela… mas de, enfim, mostrar o processo de dor e recuperação, de não ser uma esfinge – em tempo, não sei se eu conseguiria fazer isso, mas acho que talvez consigas e seja melhor.

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