Jalapão | segundo dia: água e pedra e nerdice

o segundo dia de Tocantins foi de estrada, poeira e água. muita água. o roteiro era todo no município de Ponte Alta, que abriga algumas cachoeira incríveis. saímos umas 9h da pousada para um dia inteiro de 4×4. para o almoço e lanches, o guia levou uma caixa térmica com pão, frios, frutas, sucos e bis.

a primeira parada foi no Talhado do Pau D’Arco. a gente tem uma tendência a duvidar de conversa de guia, mas acredite na do nosso: o talhado é testemunho de uma erupção vulcânica. de quando? não sei, mas há 200 milhões de anos havia atividade vulcânica no Sudeste e sabe-se que tem um vulcão extinto de 1,9 bilhão de anos no Pará, considerado o mais antigo do mundo até agora.

fato é que no Talhado dá pra ver onde as bolhas de ar estouraram, deixando buracos perfeitamente redondos. é um derrame basáltico contínuo, de talvez mais de um quilômetro, recortado por séculos de água e entremeado de cerrado. me lembrou um pouco o Vale da Lua, não em proporção, mas pelo trabalho da água na pedra.

a região está cheia desses derrames basálticos que hoje hospedam cachoeiras incríveis, como a do Soninho, a primeira que vimos neste segundo dia. para mim, a Cachoeira do Soninho foi uma experiência estupenda. quando você vê uma cachoeira como essa, tenta lembrar todas as outras cachoeiras que viu antes, pra achar uma referência. e não acha.

foi um encontro poderoso, eu sentei de frente pra ela e fui tomada por uma Energia sublime, de invocação impossível. uma conexão de todos os sentidos com o presente absoluto, daquelas que você apaga tudo da mente e apenas vê, sente, cheira, ouve, toca o mundo à sua volta. eu teria ficado horas ali sentada, contemplando. mas o guia me interrompeu =/ .

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a segunda cachoeira do dia foi a da Fumaça. metros antes do ponto de observação, você já ouve a água. em seguida, vê uma densa névoa úmida entre a vegetação, indo longe. e então chega a cachoeira. 40 metros de queda num poço forrado com grandes pedaços de rocha que provavelmente a própria água jogou ali nalgum dia de algum milênio. ela é imponente e brutalmente linda. é considerada a mais bonita pelos nativos, e não posso negar sua beleza, mas a experiência sensorial do Soninho marcou demais minha memória.

ficamos pouco ali porque ela fica dentro da Estação Ecológica Serra Geral, uma das categorias mais restritivas de conservação, que não permite a atividade turística que estávamos fazendo lá. mas não tem nenhuma placa informando isso. aliás, não há placas informando nada em praticamente todo o roteiro. nenhuma pra dizer se estávamos em área protegida ou não, o que é grave para uma região que tem um mosaico de unidades de conservação. não adianta os gestores da UC reconhecerem que a visitação é um problema e processarem a Globo. precisam tomar uma atitude. honestamente? eu não acho que o público deva ser privado de contemplar uma beleza natural como essa, que fica do lado de uma rodovia. tanto melhor seria para todos permitir a visitação unicamente para contemplação, com visitação controlada.

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depois disso, fomos tomar banho de rio acima dessa cachoeira, fora da Estação, em um lajeado cheio de peixinhos graciosos que ficamos olhando com snorkel. almoçamos em outro lajeado, o do rio Soninho. o plano era fazer flutuação nele, que tem águas mansas e cristalinas naquele ponto, mas São Pedro não estava concordando muito com o plano e mandou um baita temporal, que tivemos que esperar passar, abrigadas embaixo de uma ponte onde outro grupo fazia um churrasco. turistas defumadas.

o último ponto do dia foi a Pedra Furada. ali minha nerdice ficou fora de controle. cercada de fazendas e plantações de eucalipto, a Pedra Furada é um imenso bloco de arenito, vivo de tanto passarinho. fez eu me arrepender de nunca ter comprado binóculos. a gente fica lá olhando para todas aquelas camadas coloridas de rocha e pensando em quantas eras geológicas foram necessárias depositar uma composição mineral diferente em cada uma daquelas camadas, para depois serem prensadas por água, chuva, pressão atmosférica e sabe-se o que mais.

eu não queria mais sair de lá. queria ficar olhando o outro morro testemunho no horizonte, lá longe, tentando imaginar como foi quando tudo aquilo era uma coisa só. como foi quando a Terra se chacoalhou e fez cair tudo que tinha entre um e outro. cheguei em casa e descobri um nome muito mais legal pra todos aqueles morros que parece que brotam do nada no meio do planalto no Jalapão: inselberg. sim, eu cheguei em casa e fui ler artigos de geomorfologia. falei que minha nerdice tinha ficado descontrolada lá…

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